Uma visão musical muito particular
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domingo, 12 de janeiro de 2003
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba O mais novo integrante do grupo tem apenas oito anos. Quando questionado sobre seu futuro, ele logo responde, com forte sotaque lusitano: ''quero ser deputado para mudar as leis do meu país''. Mas o que faz um menino tão pequeno estar às voltas com pensamentos tão densos e pouco propícios à sua idade? O garoto angolano Rui Fonseca está no Brasil há pouco mais de um ano, mas já tem uma trajetória bastante extensa. Ele e mais 17 crianças integram um programa da Embaixada de Angola, que em parceria com o Ministério da Relações Exteriores, os mantém no Instituto Paranaenses de Cegos, em Curitiba.
Todas as crianças do grupo perderam a visão, seja em decorrência das minas de guerra que ainda fazem vítimas da África, seja por alguma doença genética. Não perderam, no entanto, a vontade de vencer e encontraram na música uma oportunidade de mudar a própria realidade. Quando chegaram ao Brasil, as crianças e adolescentes que têm entre 8 e 16 anos já demonstravam uma natural inclinação musical. Depois de uma passagem por uma instituição em Juiz de Fora, Minas Gerais, 11 deles chegaram em Curitiba, onde foram estimulados a estudar canto e alguns instrumentos musicais. Foi assim que nasceu o coral Jovens Cantores de Angola.
Eles já gravaram um disco, com apoio da Faculdades de Estudos Sociais do Paraná (Fesp), tentam patrocínio para o próximo CD e participam pela primeira vez da Oficina de Música de Curitiba, onde realizam concerto na próxima terça-feira.''Quando a gente está na frente do público dá uma dor na barriga, as pernas começam a tremer, mas depois da quarta ou quinta música, é tudo muito bom'', descreve o mais velho do grupo, Wilson Antonio Capingana, de 16 anos.
Wilson compõe a maior parte das músicas que integram o repertório do coral. São canções de ritmos variados, que ganham uma roupagem toda especial no sotaque e voz forte das crianças. É inacreditável, aliás, que corpinhos tãos frágeis possam produzir som capaz de arrancar lágrimas dos mais desavisados. E eles cantam embalados pelas notas do próprio Wilson ao piano. O garoto toca desde os seis anos, quando ainda estava na África. ''Comecei a tocar 'de ouvido', mas aqui no Brasil tenho acompanhamento de professores'', conta, orgulhoso.
As músicas falam de coisas de crianças sem idade (''Vamos brincar, vamos pular, vamos cantar a alegria'') e também de coisas muito mais sérias do que o grupo teria que enfrentar com a idade que têm, como a saudade da família e do país de origem (''Com a África no coração, eu vou percorrendo esse caminho longo''). Cantam também músicas natalinas e algumas mais conhecidas do público brasileiro. Parte desse repertório integra a apresentação da oficina.
E eles não escondem a saudade que sentem do ritmo angolano. ''E como é esse ritmo?'' A resposta é uma espontânea batucada nas cadeiras, resultando numa mostra do autêntico ritmo africano, que parece não ter abandonado a lembrança dos pequenos. Mas eles não escondem também a predileção pela música brasileira, que já se incorpora aos hábitos do grupo. As meninas, por exemplo, se apressam em citar o trio popular KLB ou a dupla adolescente Sandy e Júnior como modelo de ''boa música''. Já os meninos torcem o nariz para a citação e a rebatem trazendo à tona as músicas de Gabriel O Pensador.
''As letras do Gabriel, O Pensador são muito boas'', analisa Prudêncio Jeferson Tumbica, de 13 anos. Além de emprestar a bela voz ao coral, Prudêncio também estuda contrabaixo. O empenho se justifica porque ele quer ser músico profissional. Quanto ao tremor nas pernas citado por Wilson e sentido por todo o grupo quando o coral se apresenta em público, Prudêncio promete tirar isso de letra. ''É a vida de artista, tem que se acostumar'', diz, bem-humorado.
Ele lembra, por exemplo, que nunca pensou que ia gravar um disco. ''Quando escutei pela primeira vez o nosso CD fiquei muito alegre'', revela.
E apesar da inclinação musical que quase todas as crianças do grupo possuem, nem todas tiveram contato anterior com essa arte. Algumas já cantavam em corais de igreja, ainda na África, outras descobriram a vocação já no Brasil. E além de preservar a bela voz africana, os meninos e meninas carregam também a saudade das pequenas coisas, como os sabores. Wilson, por exemplo, cita uma comida típica parecida com polenta, mas todos são unânimes em citar a pimenta como o tempero predileto. Saudades também das gírias angolanas, que eles não cansam de citar, como ''mambo'' para dizer ''coisa'', ''fisch'' para citar algo bom, ''cubico'' para falar da casa.
A interventora do Instituto Paranaense de Cegos, Maria Regina de Mello Boscardim, tutora do grupo, diz que as saudades de casa, aliás, é tema recorrente nas conversas do grupo. Alguns tem família, outros são órfãos, mas juntos se completam como família. ''No total, somos 18, como a Angola que tem 18 províncias. Já pensou, se cada um de nós fôssemos deputados, poderíamos mudar as leis do país inteiro...'', vislumbra uma das crianças.
E o que eles mudariam? Se apressam em falar, na ingenuidade ou sabedoria de crianças, que mudariam as leis para deficientes, abaixariam os preços dos alimentos, para que todos pudessem comer e dariam mais liberdade para as pessoas. Como? Wilson, o mais velho do grupo, responde com mais realidade: ''Vamos chegar lá primeiro, depois a gente vê''.
Serviço:
Concerto dos Jovens Cantores de Angola, direção de Patrícia Fucks dentro da Programação da 21 Oficina de Música de Curitiba. Dia 14, às 19 horas, no Sesc da Esquina. Ingressos a R$ 5,00. Interessados em contribuir em forma de patrocínio para a gravação do CD dos jovens cantores, podem entrar em contato com o Instituto Paranaense de Cegos. Mais informações pelo telefone (41) 342 6690.


