Uma visão européia sobre os Estados Unidos
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 1997
Estelio Feldman 
ReproduçãoO esboroamento do império soviético, o fim do comunismo na Europa oriental, toda esta nova situação surgida no mundo a partir da abertura da União Soviética criou um quadro diferente de poder no planeta. Ao contrário das duas grandes superpotências que praticamente dividiam o mundo - como Espanha e Portugal conseguiram fazer na época das descobertas - ficou só uma, os Estados Unidos, quase transformados em donos do mundo. Na verdade, algumas atitudes do governo norte-americano dão mesmo a impressão de que eles gostariam de mandar mais, em termos políticos. Já impediram a reeleição do secretário geral da ONU, impondo outro mais conforme seu gosto, tentam impor ao mundo uma pressão contra Cuba, assumem o posto de combatente preferencial contra as drogas e, vez ou outra, ainda intervêm militarmente por aí.
Entretanto, o pesquisador espanhol Vicente Verdú, doutor em Ciências Sociais pela Sorbonne, por vários anos bolsista de fundações norte-americanas, vai além ao analisar o papel dos Estados Unidos no mundo, no livro O Planeta Americano, que lançou em 1996, na Espanha, e que chegou ao Brasil no mesmo ano. Para Verdú, numa análise até mesmo cáustica, os Estados Unidos estão, com suas idéias, com seu american way, com sua filosofia toda diferente, dominando o planeta de modo sutil e completo.
Divergências A análise de Verdú, que ganhou com este livro o Prêmio Anagrama de Ensaio de 1996, é feita a partir do ponto de vista europeu. E é certo que existem muitas divergências entre a filosofia do velho mundo e a americana. Talvez por isto, algumas das críticas feitas pelo autor podem ser vistas com certo ceticismo no Brasil, por exemplo, que afinal também faz parte da América.
Pode ser também que como o colonialismo cultural norte-americano é mais antigo aqui, tendo se tornado mais forte a partir do final da Segunda Guerra (enquanto o avanço global que o escritor denuncia foi se tornando mais forte nas últimas décadas) isto pese na observação plena do arrazoado do autor. Quer dizer, muita coisa que Verdú denuncia como incompatível com o espírito humanístico mundial, já foi tão absorvida por nós que consideramos até deslocado.
De qualquer modo, e mesmo com toda a predominância de um já antigo domínio cultural norte-americano sobre nós (ou até mesmo por isto) o conhecimento da obra é importante. Verdú apresenta um país diferente, em alguns pontos, do que conhecemos. Ele vai além de Nova York e São Francisco, mostrando a realidade e a filosofia da grande maioria da população, bastante isolacionista e contrária a tudo o que não é norte-americano, com valores e padrões bem definidos. Destaca os conceitos do povo, diferentes por exemplo daqueles considerados tradicionais pelos latinos, em geral, e pelos europeus em particular. E aponta os exemplos da dominação econômica e principalmente cultural que se está forjando e que ganha maior corpo ainda com o avanço das redes de computador, tipo Internet.
O Planeta Americano vale ser lido, entre outras coisas, porque apresenta uma visão muito interessante sobre os Estados Unidos e sobre o que se espera do futuro que está cada vez mais próximo.
q O Planeta Americano - de Vicente Verdú. Editado no Brasil pela Letra Livre Editora.


