Uma vida na favela, uma câmera na mão
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de outubro de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
''Existem vários Buscapés aí no mundo, vários, não sou só eu, querendo sair do morro, querendo sair da favela. O sonho de todo menino pobre, de favela, é falar: mãe, vou tirar você desse morro''. Esse é o depoimento de Alexandre Rodrigues, ator do bombástico filme ''Cidade de Deus'', de Fernando Meirelles, que interpreta Buscapé, a referência positiva da visita ao inferno que a viagem cinematográfica proporciona. O filme (que já foi visto por 2 milhões de de pessoas) apresenta o retrato aterrorizante do microcosmo chamado ironicamente de Cidade de Deus, local governado por traficantes.
O mais comentado filme do ano usou como fonte o livro homônimo e autobiográfico de um filho da favela: Paulo Lins. Os personagens vivendo na realidade asperamente chocante e impiedosa realmente existem. O sonho de Buscapé era se tornar fotógrafo, na contramão das opções que o destino oferecia. E conseguiu registrando o apartheid social no qual estava inserido. Como declarou o ator Alexandre Rodrigues, existem outros Buscapés por aí, talvez ofuscados pela realidade violenta no qual estão inseridos.
Foi com o sol a pino que a Folha 2 encontrou um ''Buscapé'' em Londrina. O encontro aconteceu essa semana, às 12h30, no Jardim Franciscato (Zona Sul). Na tevê, o noticiário alimentava a mente. Talheres tilintavam nos pratos, enquanto a família de Renilson Guimarães, 24 anos, almoçava. Assim como Buscapé, o jovem Renilson sonha com a fotografia como caminho para uma vida melhor. Existem algumas semelhanças entre o personagem retratado do filme e o Buscapé londrinense: são observadores perspicazes dos fatos a sua volta, vivem numa comunidade de excluídos, tem a mesma cor da pele e o desejo de mudança.
''Antigamente, Franciscato rimava com assassinato'', relembra. A espiral de violência ainda ronda o local, deixando as facções do bem e do mal sempre em estado de alerta. Jardim Franciscato surgiu como favela em 1978, com quatro famílias. A ocupação foi feita por ex-bóias frias. Matavam a sede com água de mina, amassavam barro em ruas íngremes que nem existiam. Cada um delimitava o seu lote. Os barracos eram construídos com sobras de madeira de uma fábrica de carroceria. Em 1985, iniciou-se o processo de urbanização e outra invasão ocorreu, surgindo a Favela Franciscato II. Passados 24 anos, tudo mudou.
Já Cidade de Deus, um conjunto habitacional criado nos anos 60, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, se transformou numa favela típica carioca. Buscapé era o garoto pobre, sensível e amedrontado com a idéia de se tornar bandido. Trabalhou até como empacotador em supermercado. Ele descobre que mesmo com as chances contra, a vida poderia ser vista com outros olhos: os de um artista. A fotografia aconteceu acidentalmente, como forma de libertação.
Renilson trabalha no setor de classificação de pisos de uma importante cerâmica em Londrina. Mora com a mãe, duas irmãs, um irmão e um sobrinho. Ele se responsabiliza pela compra dos alimentos da família. Atualmente, lê ''Cavalo de Tróia'', de J.J. Benitez. Faz curso de informática e de sua janela ele tem uma visão do arborizado Franciscato e da Biblioteca Virtual, um projeto inovador de inclusão social. No varal de sua casa, as toalhas de banho denunciam o coração corinthiano.
''Desde criança tenho atração pelo desenho, pintura, pela imagem. O desenho é mais acessível que a fotografia, por isso comecei por ele. A fotografia é mais restrita. Mas usava pequenas máquinas automáticas'', disse à Folha 2. Na parede de seu quarto, um retrato da atriz Luana Piovani, caprichosamente feito à lápis por ele. Ao lado, um quadro da morena Sheila Carvalho, com o exuberante traseiro em primeiro plano. ''Foi presente do padrinho'', avisa.
A câmera Minolta foi sonhada durante os meses em que Renilson economizou a grana para comprá-la, de segunda mão. Somado ao valor do flash, o operário desembolsou suados R$ 290,00. O primeiro filme registrou a movimentação religiosa, em Palmeiras (PR), durante a Romaria da Terra. Rostos morenos, gestos de fé e a massa humana foram captados pelas lentes da Minolta. ''A fotografia é uma arte que expressa sentimento'', resume. A câmera de Buscapé foi presente de Bené, um dos malandros da famigerada comunidade carioca.
No filme ''Cidade de Deus'', as fotos de Buscapé logo chegaram à primeira página de um influente jornal carioca. ''O talento dele era mais espontâneo. As fotos pareciam ser boas desde o início'', considera Renilson. Para o londrinense, o caminho das pedras passa pelo aprendizado nos erros. Mas o trabalho dele não fica atrás, sua foto estampa a primeira página da segunda edição do jornal ''Fala, Zona Sul'', editado pelas jornalistas Ana Paula Nascimento e Rachel Severo Alves, com patrocínio da Lei de Incentivo à Cultura e Carrefour. O projeto incluiu aulas de técnicas fotográficas com Célio Costa, da Universidade Estadual de Londrina, e reportagens sobre a região sul.
Recentemente, para o 2º Fórum de Debates Sobre Reciclagem e Tratamento do Lixo, a Infraero encomendou ao Consul (Conselho de Saúde da Região Sul) fotos de 25 entidades que atuam no setor. Renilson foi o fotógrafo escalado e conseguiu a primeira remuneração com a fotografia, graças ao conhecimento que possuía das entidades. Seu trabalho se transformou em banners durante o evento.
No mês passado no escurinho do cinema, enquanto as eletrizantes imagens de ''Cidade de Deus'' se transformavam em sensações, Renilson se identificou imediatamente com o narrador Buscapé. ''O sonho que ele tinha é o meu'', referindo-se ao desejo sem medida de se tornar repórter-fotográfico. Sua leitura sobre o retrato ágil e estonteante dirigido por Fernando Meirelles referenda a tese do diretor.
''Achei que ele mostrou a realidade. Às vezes, há pessoas que não acreditam no que viram, porque são pessoas fechadas em seu mundo. Elas não possuem informações mais amplas do que acontece nos locais mais precários'', considera. Impossível sair ileso depois de um texto como esse na boca de uma criança: ''meu irmão, eu fumo, eu cheiro, já roubei, já matei. Não sou criança não. Sou sujeito homem.''
Para Renilson, Buscapé escolheu o lado mais difícil, ao ser obstinado em busca de seu sonho, mesmo rodeado de confusão e exemplos nada recomendáveis. ''É importante correr atrás do sonho, independente da realidade em que se vive. Acho que o alicerce de tudo é a família'', diz, num tom reflexivo. Também vivendo o apartheid social, a comunidade do Franciscato passou por mudanças, que incluem conquistas como a Biblioteca Virtual e a importante atuação das Mulheres Batalhadoras do Jardim Franciscato.
Os moradores, incluindo Renilson, eram vencidos pela vergonha quando precisavam falar onde residiam. Isso mudou. Ele convive com algumas referências positivas e outras ainda vexatórias. Da janela do quarto, Renilson observa uma criança de apenas cinco anos fumando na rua e outros que acompanhou o crescimento sendo presos. Para agravar a situação, alguns homicídios ocorridos no bairro esse ano estufam as estatísticas da violência na cidade.
Para o próximo ano, consta no projeto do Buscapé londrinense retornar aos bancos escolares e se preparar para o vestibular. Afinal, o desejo acalentado por tanto tempo de se tornar um repórter-fotográfico precisa tomar forma.


