Uma viagem urbana
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de junho de 2011
celia musilli 
Os ônibus são aqueles corredores móveis onde todo tipo de pessoas se encontram, trabalhadores e estudantes, idosos e crianças. Uma pequena Babel onde comportamentos, histórias e linguagens se misturam. No trajeto para a universidade tomo dois ônibus. O suficiente para interagir com pessoas que me revelam sua leitura do mundo. Semana passada, prestava atenção na conversa de dois operários que falavam como são 'governados pelos motoristas', a expressão era essa e eu pensava no desgoverno em que às vezes se transformam os trajetos de ônibus. Na direção, homens acostumados ao trânsito difícil, jogam passageiros para lá e para cá, às vezes sem muito cuidado com a velocidade e as freadas, num típico comportamento de quem só pensa em si.
Os dois trabalhadores riam das manobras das quais são coadjuvantes, um deles contava que quase 'atropelou' uma moça quando foi jogado, dia desses, para cima de outra passageira que, como ele, viajava em pé. Ela desviou-se a tempo e ele deu com as costas num destes apoios de metal nos quais as pessoas se seguram neste rodeio motorizado em que o cavalo é invisível, mas comanda nossos movimentos, obrigando-nos a pinotear com ele sem aviso.
Enquanto eles riam da diversão involuntária, baixou em mim um daqueles santos da crítica social e reclamei do modo como os motoristas nos conduzem. Eles concordaram, mas nenhum de nós quis aprofundar o assunto, porque o trajeto era longo, mais de uma hora até a universidade, e outras aventuras nos aguardavam. As 'conversas de ônibus' estavam apenas começando às 7h15 da manhã e eu achava engraçado o modo como aqueles operários se colocavam na paisagem urbana, falando sobre os carros que gostariam de ter, as mulheres bonitas, o dilema de chegar atrasado ao serviço. Mas o melhor da história ainda estava por vir.
Passamos por uma construção, um desses condomínios onde sempre há mais apartamentos a serem feitos. Na obra, uma mulher jovem, com capacete, concentrava-se em seu ofício de meter a mão na massa que não era de bolo. Os homens que viajavam comigo não resistiram. O mais jovem disse: ''Olha lá uma mulher na construção''. O outro não se conteve: ''Pois é, elas agora estão tomando nosso lugar''. Sabendo que as mulheres estão cada vez mais cotadas para trabalhar em obras, provoquei comentando que para alguns serviços, como a colocação de pisos e azulejos, dizem que as mulheres são mais caprichosas que os homens. O operário mais jovem concordou com um 'é mesmo'. O outro deu de ombros e não disse nada. Até que na próxima parada, onde os dois desceriam, o operário que havia silenciado diante do meu comentário sobre o 'capricho das mulheres' não se aguentou. Entre um solavanco e outro, desdenhou do trabalho feminino e disparou o que para mim foi a piada do dia: ''A senhora vai ver, quando estes prédios feitos por mulher precisarem de conserto vão achar dentro das paredes umas casquinhas de esmalte, batom e até uma foto do Bruno e Marroni!'' Só pude rir, enquanto ele 'apeava' do cavalo mecânico desejando: ''Bom trabalho''. Achei muita graça no seu voto levemente irônico e pensei que adoro os comentários que a gente só pode ouvir num ônibus. É onde pulsa a vida e uma alegria simples.
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