A viagem para a China começa bem antes da partida. Mas não como qualquer outra viagem. No meu caso, começou com a impossibilidade de acreditar que eu realmente ia. Porque, no nosso imaginário, a China é inimaginável. Basta, para entender isso, prestar atenção nas expressões da nossa língua: ‘‘nem aqui nem na China’’ ou ‘‘só se for na China’’ ou ainda ‘‘negócio da China’’.
Ao dizermos que algo não é possível nem aqui nem na China, implicitamente afirmamos que uma coisa impossível para nós pode ser possível lá. Tanto o ‘‘só se for na China’’ quanto o ‘‘negócio da China’’ implicam na mesma idéia. Isso significa que há coisas lá que sequer nos passam pela cabeça. São inteiramente estranhas e, portanto, assustadoras.
As expressões da língua nos mantêm afastados, insinuando que a China nada tem a ver conosco, não há como chegar nela verdadeiramente. Daí a minha descrença na viagem que, sorte, eu ousei fazer para conhecer Xangai, Xian e Pequim.
Do aeroporto para o centro de Xangai, o que mais me surpreende é o trânsito. Possível será que os carros, as motos, os triciclos e as bicicletas ocupem o mesmo espaço nos dois sentidos? Que eles dobrem indiscriminadamente pela esquerda ou pela direita? Qual é a regra?
Percebo logo que a regra é avançar como der, e que é necessário estar continuamente atento para não sofrer um acidente.
Como não sinto medo porque o chofer é ótimo, logo me esqueço do trânsito para olhar a cidade, ver as torres que, pela forma e pela cintilação, me fazem pensar em Nova York.
Nos últimos seis anos, foram construídas mais de 3 mil torres. É uma atrás da outra. Cor de ouro, cor de prata, com ideogramas gigantes igualmente dourados e prateados. Xangai é indissociável da expressão ‘‘novo rico’’, como as cidades da América do Norte e da América do Sul que eu conheço, e, sem gostar do que vejo, eu me sinto em casa. Mas em Xangai há mais cartazes do que em São Paulo – como, aliás, nas outras cidades da China. Compreensível, os chineses se lançaram na economia de mercado sem saber o que é democracia. Portanto, estão mais sujeitos do que nós à selvageria do capitalismo.
Na antiga capital imperial da China, o trajeto do aeroporto para o hotel não é propriamente animador. Vejo uma usina nuclear que fumega como em Cubatão, imóveis decadentes e uma habitação de trogloditas.
No centro da cidade, como no século passado, um grande número de triciclos, ônibus, caminhões e carros em péssimo estado ultrapassando-se pelos dois lados. Nas paredes da cidade, mais anúncios do que em qualquer outro lugar. Percebo agora que a China se lambuza de publicidade. Como criança que nunca comeu melado. Poluição sonora e visual. Gente sentada na calçada, em cima de um jornal ou de um banco improvisado com quatro bambus.
Sei que não faz sentido me perguntar se valeu a pena atravessar os continentes, mas, de repente, é isso o que eu faço.
Por sorte, mais tarde saio a andar pelo centro e vejo que a convivência entre as pessoas é extraordinária. Em quase todas as ruas, os homens jogam baralho ou dama, as mulheres assistem e as crianças brincam. No colo da mãe, com outras crianças ou com os adultos. Sempre sorrindo e felizes.

mockup