UMA VIAGEM MUITO PESSOAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de setembro de 2000
Antônio Mariano Júnior De Londrina 
É... Não é nada tão fantástico, divino ou maravilhoso, mas não deixa de requerer um certa atenção a sonoridade convencional a que Zeca Baleiro se deu ao direito em seu terceiro disco. Chama-se Líricas e é um barato pessoal ou conceitual do cantor e compositor maranhaense que resolveu dar um tratamento acústico às doze canções. Acústico mesmo que tal expediente, nos dias de hoje, seja interpretado pela fauna e flora do pop brasileiro como o máximo de depuração estética. Melancolia e saudosismo gotejam em quase todas as faixas. Daí que a roupagem eletrônica dos trabalhos anteriores, conforme o criador, não vestiria bem a nova cria. Poderia sufocar o lirismo, desprivilegiar as letras, essas coisas... Momentaneamente cansei do pop. Senti que ele quase sufocou o meu discurso, avisa ele rapidinho no material de divulgação.
Tá! Se não pop na textura, pop pelo menos na narrativa. Contemplativo mesmo que, conceitual por natureza, venha a público com a intenção ou pretensão de ser reflexivo. De fato um disco que tem lá vários insights líricos diluídos em alguns versos, ou supostos versos, encharcados de trocadilhos É mais fácil mimeografar o passado do que imprimir o futuro, diz um trechinho de Minha Casa, a primeira faixa.
Há e.e. cummings (via Augusto de Campos) e Alice Ruiz que até podem reforçar o peso intelectual com que Líricas foi posto na roda. Em contrapartida, há a releitura da bobinha Proibida pra Mim, sucesso maior de Charlie Brown Jr. tá, ok, há um certo encanto a agora convertida balada feita por Zeca Baleiro.
Mas o negócio é o seguinte: Líricas tem um climão on the road folk, blues, baladas (muitas), valsinhas modernas. Onde vai dar essa estrada? Bem, aí vai depender da estabilidade emocional de quem ouvir o disco. Papo-cabeça, baratotal ou seja o que for, Líricas vai bater mais forte e bacana tá ligado? em ouvintes com organismos aditivados; em quem bebe, aspira ou traga a vida a qualquer hora do dia ou da noite. O peso discográfico só o tempo dirá. As vendagens idem.
Assim: Líricas não chega a causar dormência ao ponto de se cochilar no braço da poltrona. Dá para pestanejar, mas cuidado: há bons momentos. Que se encontram principalmente na bela Comigo, Banguela ou Babylon. O resto fica por conta da melancolia natural ou artificial de quem se propuser a ouvir o disco de cabo a rabo e conseguir ficar na vertical depois de pouco mais de cinquenta minutos desse viagem pessoal e quase intransferível de Zeca Baleiro.
Em tempo: a turnê do novo disco começa primeiramente em São Paulo dias 4 e 5 de novembro no Tom Brasil. Depois, dia 14, segue para terras cariocas e aporta no Canecão. E aí, pé na estrada. Curitiba, Londrina e Maringá estão incluídas no roteiro. A seguir, os principais trechos da entrevista que Zeca Baleiro concedeu, por telefone, à Folha2.
O disco passa pela melancolia e saudosismo. É conceito ou uma fase pessoal que você resolveu transpor para o disco?
Não estou num momento melancólico. Diria se tratar de um traço de minha personalidade que, quando fiz essas canções, aflorou. O fato de eu fazer um disco nesses moldes talvez seja em decorrência do esgotamento daquela outra faceta minha, aquela coisa dançante, mais rítmica, mais vibrante, pra fora. E talvez eu tenha sentido a necessidade natural, orgânica até de fazer um mergulho, um trabalho nessa direção...
De ir em outra direção ao ponto, inclusive, de declarar no material de divulgação estar momentaneamente cansado do pop...
É. Mas o disco tem o seu approach pop. Pop não no sentido da superpredução, estúdio, de efeitos com alta tecnologia... Esse disco está bem cru, despojado, né?
Acústico, né?
Acústico sim, mas que não remete aos acústicos da MTV que estão na moda.
Alguma música em especial deu o ponto de partida para esse disco?
Algumas músicas já existiam, ou seja, não foram feitas para o disco. Olha, não houve uma música específica...Foi desejo mesmo de fazer um disco de canções baseado em violões e coisa tal. Com uma sonoridade meio clássica que não envelhece, com um tratamento com cordas e piano... E eu tinha várias canções que se encaixavam nesse perfil. Gravei 35 canções na pré-produção do disco e aí cheguei a esse repertório final.
Você acha realmente que em Líricas há muito mais poesia do que nos dois discos anteriores ou a maneira como as letras foram revestidas é que dão um toque mais poético?
Sem dúvida a sonoridade ajuda também. Ele é poético porque busca a poesia tanto em letras como em canções, ao contrário dos outros discos, ainda que houvesse uma poesia, sufocada, que ficava em outro plano.
Podemos resumir assim: Líricas é um filme em preto-e-branco por tratar de saudosismo também?
É isso! Taí uma boa definição porque tem uma coisa cinematográfica na narrativa dele; tem essa saudade e melancolia que são, ao meu ver, muito cinematográfica. Até o tratamento gráfico remete a um tempo imaginário, tempo inventado. É um disco que tem muitas referências, muitas alusões ao meu universo afetivo... Minha mãe encerra o disco, por exemplo.
Afetivo e intelectual? Lá tem um poema do cummings...
Também. Eu tenho admiração pela obra do cummings. Peguei o livro do Augusto de Campos e descobri esse poema. Fiquei fascinado pelo lirismo do poema, deu um estalo e fiz a canção.
E se há cummings há Charlie Browns Jr. É essa música certamente quem deve puxar as vendagens por ser mais...
Foi a música que a gravadora escolheu para trabalhar por uma razão até ... É uma canção radiofônica e tal.
Se há lirismo há também sarcasmo mesmo que mais sublimado, não?
Há. Eu acho que o sarcasmo pode ser um arma poderosa mesmo dentro de um contexto lírico... Deve ser por causa dessa atmofsera universal do disco que o sarcasmo não fica tão explícito.
Giorgio Armani e Brigitte Bardot são os padrinhos do disco? Digo em termos de letra mais sarcástica, uma brincadeira imaginária e a outra mais lírica, saudosa, dolorida. Ou seja, os dois pólos do disco?
Não, não... É difícil apontar uma letra que traduza o disco. Talvez a primeira, Minha casa, sintetize o trabalho porque traz todo o desencanto e esperança no mundo possível. Esse lance da Brigitte e Giorgio ...Esse seu pensamento, essa sua sacada pode ser até original por se tratar de dois ícones do mundo pop, mas não é por aí....
Você acha que as pessoas vão sacar de cara essa sua proposta ou será preciso um tempo para digeri-la?
Com certeza é um disco para ser digerido aos poucos. Um disco para ser ouvido repetidas vezes, na poltrona...
De forma reflexiva ou contemplativa?
Mais reflexiva. Embora houvesse essa coisa nos outros discos, fizeram festas e deixaram mais à mostra a coisa dançante, a mistura de ritmos, a fusão do folclore com eletrônico. Mas nesse disco as pessoas vão se surpreender e, espero, de maneira positiva.
É seu terceiro disco. Dá para relaxar, ou seja, dá pra deixar a coisa correr já que a carreira está praticamente sedimentada?
Ah, não, nunca, não dá para relaxar... O cara pode ter 30 anos de carreira ele sempre terá essa expectativa, uma ansiedade em relação a como as pessoas vão aceitar seu trabalho. O que muda, eu acho, é que você com o tempo vai se importando menos com isso... Mas esse novo disco eu fiz com tanto prazer e tanta verdade que óbvio que quero repartir com o público. Mas confesso egoístamente: eu fiz esse disco para mim.
Você foi um dos indicados ao Grammy Latino...
Esse prêmio tem lá sua importância de mercado. Para o artista, do ponto de vista estético, muda pouca coisa. É um prêmio feito mesmo para valorizar o passe do artista.
Mas você ficou comendo unhas aguardando o resultado?
Não mesmo. Tinha certeza que não ganharia. É bom para o ego, bom para a carreira mas vou lhe dizer a verdade: sou avesso a prêmios.


