Quando era criança, pensava com ingenuidade que ao observar atentamente os pássaros poderia ganhar deles o poder mágico de voar. Voar pelos telhados, prédios e pelas verdes e longínquas montanhas que imaginava existirem do outro lado, lá no finalzinho do azul do céu.
Mas o tempo passa e as crianças crescem. Não perdi totalmente a vontade de voar. Será que queria ter asas? Acho que sim. Estaria muito bem equipada para sair rapidinho do barulho da cidade e das situações indesejáveis.
Mas como somos limitados e unidos ao chão, acreditei que uma viagem de balão poderia suprir meu desejo de estar lá no alto. Ah! Um balão, daqueles bem coloridos sobre um lago como os expostos nas fotografias das revistas. Seria uma viagem interessante e eu não ficaria com medo, pois é seguro. Poderia ver tudo e todos lá de cima, como formiguinhas, andando devagar, devagar.
Sim, é poético observar os pássaros, ou os balões, com a incrível esperança de algum dia poder fazer uma viagem assim silenciosa e calma, sem atropelos e sem hora para sair ou voltar. No entanto, quando as janelas se abrem e o mundo palpável e impaciente nos chama, desaparecem os pássaros, caem os balões, adiando assim nossa tranquila e sonhada turnê.
A primeira reação é pensarmos que tudo está perdido. Só que ainda há uma solução. Foi o que pensei quando descobri recentemente o surpreendente e extraordinário Google Earth, que agora me auxilia em minha andanças pelo mundo. Ontem estive em Galápagos e antes de ontem pude ver o Monte Fuji, a Muralha da China, o Mar Mediterrâneo, o Arroio do Chuí e a Cordilheira dos Andes.
Que mistério haverá na imensidão do mar e suas inúmeras ilhas? Dá um friozinho no estômago de verdade quando me aproximo dos lugares desejados e os sobrevoo. Sinto-me em um balão virtual. Assim vou desde a Patagônia, passando por Fernando de Noronha, pelo Pantanal e pelos mares gelados da Escandinávia, a buscar as misteriosas cidades invisíveis sobre as quais nos fala o personagem Marco Polo no livro de Ítalo Calvino. Ou quem sabe até, imagino, finalmente encontrarei a Pasárgada tão festejada pelo poeta Manuel Bandeira.
MARIA HELENA DE MOURA ARIAS é jornalista e Doutora em Letras

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