O público do 36º Festival Internacional de Londrina (Filo) poderá viajar pelas diferentes culturas de oito países ao percorrer a instalação ''Portraits Dansés'', realizada de hoje a sábado, das 19 às 22 horas, nas antigas instalações da Casa de Cultura da UEL. O trabalho do Grupo Clara Scoth, da França, foi idealizado e dirigido por Philippe Jamet.
O coreógrafo francês passou três anos coletando imagens e depoimentos de pessoas na França, Brasil, Vietnã, Itália, Japão, Estados Unidos, Marrocos e Burkina Faso (África). ''Portraits Dansés'' (Retratos Dançados) é um projeto internacional que fala da vida e do cotidiano na intimidade, da maneira como as pessoas vivem em diferentes culturas. ''Busquei pessoas normais, não artistas, de todas as gerações e características. Pobre, rico, velho, jovem. Uma particularidade do projeto é a expressão de emoções com palavras e com gestos e a relação da vida com a arte'', comenta Jamet.
Na instalação, o público percorrerá corredores com painéis de fotos e cinco salas em que serão exibidos vídeos, finalizando o trajeto assistindo a performances solo de três bailarinos do grupo (dois franceses e uma italiana).
Para desenvolver o projeto, Philippe Jamet seguiu um mesmo processo com todos os participantes. Em cada cidade que passava, escolhia 10 homens e 10 mulheres com idades diferentes. Depois aplicava um questionário, pedindo para as pessoas descreverem com três adjetivos a cidade, o bairro e a casa em que moram, três objetos preferidos, cantar uma música da infância, falar sobre a posição que gosta de dormir e sobre a paisagem ideal. ''Essas perguntas possibilitaram entrar, lentamente, na intimidade das pessoas'', conta.
No passo seguinte, Jamet estabeleceu cinco temas, considerados de maior relevância no processo: encontro, felicidade, infelicidade, medo e esperança. ''Cada pessoa falou qual foi seu encontro amoroso mais bonito e o que sentiu com ele; qual a pior e a melhor coisa que aconteceu na sua vida; do que tem medo e qual é a sua esperança. Eles relatam a experiência verbalmente e depois expressam os sentimentos com o corpo'', explica o coreógrafo.
Todo o processo foi filmado na casa de cada participante, mostrando a intimidade, a atmosfera local, a linguagem corporal e a maneira de se relacionar com o ambiente em que vive. Essas imagens é o que o idealizador chama de portraits (retratos).
Jamet criou, então, uma coreografia de sentimentos a partir dos movimentos temáticos. No total, o espetáculo traz 12 retratos de cada país, com duração individual de três minutos e meio. Finalmente, os dançarinos do Grupo Clara Scoth partiram da observação dos movimentos temáticos para criar coreografias solo, dançadas no final do espetáculo, bem próximo ao público.
Em Londrina, 200 espectadores poderão entrar em cada sessão, que pode durar até três horas. ''O espectador é quem faz seu próprio tempo. Ele pode ficar o período todo ou apenas meia hora'', diz. Mas de qualquer forma não vai conseguir assistir a tudo, avisa. Para ver a filmagem completa seriam necessárias oito horas. Na França, a experiência juntou espectadores por seis horas seguidas na instalação.
O importante é que, independente do tempo, é possível comparar as culturas, observar as diferenças e semelhanças e estabelecer uma relação individual com a instalação. Segundo Jamet, o trabalho permite que o público se identifique com os personagens reais dos retratos. ''Somos todos seres humanos quando temos medo, fome. Isso só não se traduz da mesma maneira por causa da realidade político-cultural de cada lugar'', analisa.
O público também poderá se expressar ao final da instalação. O mesmo questionário aplicado no processo estará à disposição do espectador, que poderá deixar suas respostas fixadas em um local específico do espaço.
O projeto ''Portraits Dansés'' nasceu na França, com caráter local. A partir do resultado positivo da experiência, tornou-se internacional. Philippe Jamet passou cinco semanas em cada uma das cidades escolhidas. No Brasil, a cidade escolhida foi São Paulo. ''Essa capital tem todas as culturas do país representadas'', justifica o coreógrafo.
A estréia oficial de ''Portraits Dansés'' Tour du Monde aconteceu na França, em outubro. O Brasil foi o primeiro país a recepcionar o trabalho, no último sábado, no Rio de Janeiro. Depois de Londrina, a instalação será montada em São Paulo e segue em turnê por outros países.
FICHA TÉCNICA:
''Portrait Dansés'', espetáculo do grupo Clara Scoth, da França. Realização e direção artística: Philippe Jamet. Concepção dos vídeos: Philippe Demard. Cenografia: Jean Baptiste Lavaud. Dançarinos: Romano Bottinelli, Claudia Miazzo e Patrick Harlay.

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