Uma viagem ao mundo das letras
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Durante anos, a literatura não passava de uma forma de entretenimento - fruto da habilidade humana de transmitir cultura primeiro de forma oral, depois no papel, ela possibilitava um desafogo para as agruras do dia-a-dia. A literatura tornou-se arte de fato a partir do momento em que se transformou em um espelho da realidade. ''A arte da ficção, desprezada durante séculos pelos teóricos e moralistas, tornou-se ao longo do tempo, graças a grandes autores, uma investigação sobre a condição humana'', sustenta Thais Rodegheri Manzano, jornalista e escritora que reuniu suas reflexões a esse respeito no livro ''Artimanhas da Ficção''.
São análises de 20 obras-primas da escrita mundial reunidas em 18 ensaios, livros que, produzidos em línguas distintas e em épocas espaçadas, apresentam uma fantástica viagem de descoberta sobre a aventura humana. Assim, muito além do mero entretenimento, a leitura de cada um, no entender de Thais, induz o leitor a uma reflexão sobre si mesmo, questionando-o sobre suas possibilidades, seus limites e suas relações com o mundo.
Professora de História de Literatura na pós-graduação da Faap, onde testemunhas insuspeitas garantem que suas aulas hipnotizam os alunos tanto pelo domínio de conhecimento como pela empolgada retórica, Thais oferece um painel ao mesmo tempo didático e nada presunçoso sobre os diversos caminhos da literatura ao longo dos séculos.
Para isso, ela fez escolhas que a obrigaram a deixar de fora grandes nomes como Herman Melville e Machado de Assis, para citar apenas dois gigantes. O que a orientou, no entanto, foi apontar obras cujo significado e importância abraçavam todas as outras do mesmo período. É o caso do ensaio que abre o livro, sobre ''Dom Quixote de La Mancha'', de Miguel de Cervantes.
A loucura do cavaleiro errante é considerada marco da literatura moderna justamente por apresentar uma alteridade, uma visão irônica e subjetiva do mundo. Desde seu surgimento, a natureza de Dom Quixote, tal como a de um homem moderno, é marcada por cultura e meios de comunicação. Não foi por acaso que ele nasceu na mesma época que o primeiro meio de comunicação de massa, a imprensa escrita, que, por sua vez, promoveu um gênero literário amplamente disseminado, conhecido como romance cavalheiresco.
No ensaio seguinte, Thais dá um salto de séculos para desvendar a sombria alma de Franz Kafka a partir de ''A Metamorfose''. Aqui, desponta uma outra forma de loucura, aquela assimilada e difundida pelo homem contemporâneo a partir da história do rapaz que misteriosamente amanhece transfigurado em um inseto, gerando um repúdio entre os familiares e nas pessoas que o cercam. ''Kafka explora a subserviência do indivíduo e o poder repressivo da família, principalmente na figura do pai'', observa Thais. ''Naturalista nos detalhes, nas descrições, nas análises, é inteiramente surrealista na situação.''
O livro se encerra com a história de outro homem marcante, Riobaldo, de ''Grande Sertão: Veredas'', atormentado tanto pela dúvida sobre a existência do demônio como pela paixão inconcebível por alguém que julga ser outro homem, Diadorim. ''Trata-se do crime e castigo do sertão'', sentencia Thais.
SERVIÇO
- Artimanhas da Ficção - Ensaios de Literatura
Autor - Thais Rodegheri Manzano
Páginas - 168
Quanto - R$ 28
Obras comentadas
- Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes
- A Metamorfose, de Franz Kafka
- O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde
- A Morte em Veneza, de Thomas Mann
- Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe
- Crime e Castigo, de Dostoievski
- A Princesa de Clèves, de Madame de La Fayette
- Madame Bovary, de Gustave Flaubert
- As Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos
- O Pai Goriot, de Balzac
- O Vermelho e o Negro, de Stendhal
- A Volta do Parafuso, de Henry James
- Germinal, de Émile Zola
- A Senhora Beate e seu Filho, de Arthur Schnitzler
- O Coração das Trevas, de Joseph Conrad
- Às Avessas, de Huysmans
- As Ondas, de Virginia Woolf
- Os Falsos Moedeiros, de André Gide
- Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa
- O Horla, de Guy de Maupassant


