Uma vez rainha, sempre rainha
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de maio de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Livio Campos/DivulgaçãoA ordem é uma só: comprem! Comprem, ouçam, emocionem-se e tenham a certeza de que têm nas mãos um dos mais importantes discos da mais importante intérprete brasileira da atualidade. Maria Bethânia. Que aparece, sete meses depois do lançamento de Âmbar, com um disco ao vivo em que faz um resumo de sua carreira e volta a declamar textos de Fernando Pessoa. Chama-se de Imitação da Vida (Emi-Odeon) e traz, no total, 28 faixas e 11 textos belíssimos do poeta português, escondido atrás dos heterônimos Álvaro de Campos e Ricardo Reis, quando não inteiro na sua própria pessoa. Tudo isso distribuído em dois CDs.
Imitação da vida foi gravado ao vivo no Palace, em São Paulo, em dezembro de 96. Sucesso de público, o show teve direção de Fauzi Arap. Bethânia gosta de registrar seus espetáculos em disco, um fato quase corriqueiro na década de 70 quando gravou, por exemplo, a trilogia Drama (72,73,74) e Rosa dos Ventos (71). A diferença é que agora, nos anos 90, a tecnologia permite um melhor resultado sonoro. Porém, o mais impressionante no lançamento é o fato de Bethânia estar exata como cantora, sem exagerar nos vibratos e usando melhor a respiração.
Os agudos de Bethânia estão domados. A força dramática de sua interpretação, idem. Não pensem, entretanto, que ela tornou-se uma cantora técnica como Gal Costa ou Marisa Monte. Não. Bethânia ainda continua exalando dramaticidade só que de maneira mais econômica. Ou melhor, menos desvairada. Ela ainda exagera nos erres e esses, é certo. Mas não prolonga tanto as notas para mostrar que essa ou aquela música é sofrida ou foi feita para ser cantada e/ou ouvida por quem sofre das negações do amor.
Em resumo, Maria Bethânia está cantando como nunca. E esse é o grande trunfo de Imitação da Vida, além de trazer um repertório que mescla antigos sucessos da cantora, oito músicos de Âmbar e três canções inéditas - Sino da Minha Aldeia, Quadrinhas e Segue teu Destino, na verdade poemas de Fernando Pessoa musicados por, respectivamente, Roberto Mendes (os dois primeiros) e Sueli Costa.
No disco, a cantora faz as pazes artísticas com Gilberto Gil - Lamento Sertanejo (em parceria com Dominguinhos) e Viramundo (com Capinan), depois de catorze anos sem gravar uma só linha do conterrâneo. No geral, Imitação da Vida é um auto-resgate que Bethânia faz através de canções como Rosa dos Ventos, A Voz de uma pessoa vitoriosa, Grito de Alerta, Terezinha, entre outras. O público delira.
Refrões antológicosClaro, é inevitável a pretensão de Bethânia em se mostrar contemporânea ao gravar e regravar canções de novos compositores, como Arnaldo Antunes (Alegria). Mas é nítida a preocupação - muito mais sincera - em se mostrar mais antenada com compositores clássicos, alguns relegados ao esquecimento. O público sabe disso. As palmas e os gritos são provas audíveis.
É por isso que Bethânia está esplêndida cantando refrões antológicos contidos em Chão de Estrelas (Orestes Barbosa-Silvio Caldas), na boleirosa faixa Preconceito (Antonio Maria-Fernando Lobo) e Lama (Aylce Chaves-Paulo Marques), Felicidade (Antonio Almeida-Braguinha). Agora, emoção mesmo (daquelas em que se quase chega às lágrimas, dependendo do estabilidade emocional do ouvinte) acontece em Mensagem (Cícero Nunes/Aldo Cabral) costurada com o texto Todas as Cartas de Amor São. O público só falta urrar. Há quem urre, aliás.
Mas nem só canções dores-de-cotovelo fazem de Bethânia a diva máxima do sofrimento. A doçura e brejeirice aparecem em Bela Mocidade, de Donato e Francisco Naiva. Deliciosa. E os textos. Ah, os textos. Escolhidos a dedo. Espalhados inteligentemente pelos dois discos. A pesquisa final e seleção de textos ficou a cargo de Violeta Arraes Gervaiseau.
São textos (ou poemas) de profunda singeleza, que ganham a força do simples e do tocante na voz dessa diva outrora desvairada, outrora açucarada, atualmente insuperável.


