Uma última lição. Ou aprendemos ou...
'O Professor Substituto' aborda o suicídio metafórico e, em cason extrema, real do planeta
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
'O Professor Substituto' aborda o suicídio metafórico e, em cason extrema, real do planeta
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Uma das tendências do cinema francês contemporâneo e independente que mais tem sido repetida, até o ponto de causar enfado, preguiça e indiferença no espectador, são os filmes sobre colégios, alunos, professores e variadas situações/climas rarefeitos. Este ambiente tem sido com frequência utilizado como reflexo da realidade cotidiana vivida pelos franceses, e também para,'en passant', expor problemas maiores que preocupam a sociedade do país. O problema é que se vê nas telas, repetitiva, uma mesma fórmula com os mesmo ingredientes, tais como alunos conflituosos, professores inábeis, desafios de superação, pactos entre professores e alunos para superar dificuldades juntos. Dramas sociais com repertório já esgotado, da série visto um-visto todos.
“O Professor Substituto” (o título escolhido no Brasil para o original “L’Heure de la Sortie/A Hora da Saída” sugere ou quase nada) não é um filme escolar típico desta marasmo que retrata o sistema ou um de seus heróis. Aqui a originalidade é sentida desde a primeira cena, e é desencadeada quando o espectador descobre estar diante de um grupo de estudantes com alto índice de capacitação intelectual. O filme abre com um professor literalmente defenestrado da sala de aula, durante uma prova – ele abre a janela e se suicida na frente de sua turma de alunos. Uma brutal declaração de intenções que de imediato rompe com todos os tópicos dos filmes que seguem a tendência “escolar”.
A baixa causada pelo docente-suicida é suprida rapidamente pelo novato Pierre (Laurent Lafitte, o vizinho estuprador de Isabelle Huppert em “Elle”), que passa a se responsabilizar por uma das classes de elite do instituto, vale dizer, alunos superdotados de quem se espera notas e resultados brilhantes. A atenção de Pierre é direcionada diretamente a um grupo menor, seis, que se comporta de maneira peculiar. Ele é provocado e rejeitado até o ponto deles se tornarem uma obsessão para o mestre. Que decide espioná-los para tentar descobrir o que fazem durante o tempo livre. O que descobre é que os seis se automutilam de maneira diversas e especiais. É a partir deste momento que “L’Heure de la Sortie” se arma com elementos de um dos gêneros mais em alta nos últimos anos: o eco-thriller , filmes que denunciam mudanças climáticas.
Este pequeno grupo de alunos está tão conscientizado sobre os problemas causados pelas transformações ambientais que realizam DVDs com resumos de atrocidades cometidas pelos seres humanos. Pierre se vê muito desconcertado e perturbado diante do que descobre , mas sua atitude é de se aproximar do grupo, embora sem êxito.
Os roteiristas Sébastien Marnier (também diretor) e Elise Griffon, que adaptaram o romance homônimo de Christophe Dufossé, sabem como aumentar a tensão com calma calculada, embora sem lentidão. Isto é o melhor e mais louvável no filme, o tom adotado, que se equilibra num trânsito de gêneros: o drama social (próprio dos filmes sobre escola), o thriller e, em determinados momentos, o terror. É um filme desconcertante, com personagens que rejeitam seus estereótipos, e carregado de crítica explícita a nosso conformismo diante das transformações climáticas. Uma obra que parece se distanciar do que foi dito e contado até agora, e uma experiência que gera no espectador incômodo e fascínio. O discurso vai no sentido de que a verdade não vai nos libertar, vai nos conduzir à racionalidade e esta ao suicídio metafórico e, em caso extremo, real, do planeta tal qual o conhecemos.


