Uma travessia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de março de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Assunto bastante debatido e discutível, a criação, em arte, é sempre um tema bastante complexo e controverso. Daí a permanente atualidade e seu caráter inesgotável. Procurar pela sua gênese é como tentar compreender o que veio antes do Big Bang, ou Big Crunch, como se discute nas modernas teorias da física.
Mas a única referência da qual podemos partir é a do princípio pessoal, para poder indagar sobre essa questão. Cria-se por uma necessidade interna. Para descobrir o que se é, sem que se soubesse antes o que quer que seja. Para desvendar-se. Para despertar-se. Para revelar o que não se sabia a respeito de si. Porque se quer prestar atenção a algo que está dentro, que da escuridão venha à luz. Como um grão de areia se faz pérola na ostra. Como uma gravidez, cujo parto fosse trazer a luz o que ainda não existe. Para sentir o limite do vazio em uma página que é toda branca. Um nada que nos desafia a fazer sentido.
Em primeiro lugar, a matéria e a materialidade das coisas no mundo. A tinta, o pincel, a letra impressa, a palavra solta, a frase enfileirada juntando os fragmentos das idéias, que traduzem ou tentam traduzir sensações. Depois, a ressonância desse exprimir-se nas coisas do mundo. A arte se torna espelho, mesmo que a vida a imite.
Não há como fugir a este corpo que nos prende. Deste desejo que escraviza. Desta atitude que acaba expondo um Ser. Fraco e sensível ao chamado da vida. Mas ao ser preso, escravizado, exposto em chagas, dores, violências, medos e paixões, também o amor, a liberdade, torna-nos Senhor de sua presença, seu maior aliado. E ensina que a arte não é feita só de intenções de pura espiritualidade. Ela é carne em busca do Supremo. Em busca da essência. Em busca do movimento circular e aberto em que todas as coisas fazem parte desta poética. E esta poética faz parte do mundo. Eu e o mundo, indivisível. O mundo e eu, plural.
Mas continuamos sendo nada no mundo. Ou melhor, passagem para o mundo, para a vida, para a criação se manifestar. Como um ''cavalo de espírito''. O médium. Um midium.
A luz precisa da cor. A cor precisa da tinta. A tinta precisa de uma superfície. A superfície precisa de um olho que a veja. O olho precisa buscar correspondência nas coisas. As coisas precisam ser iluminadas. E sentidas, se quisermos que sejam reveladas.
''A viagem mais para fora é a viagem mais para dentro'', dizia Matsuó Bashô, há mais de 300 anos, quando de sua ''Sendas de Oku''. Um livro de viagem e hai-kais, feito enquanto atravessava, a pé, o Japão, de norte a sul. Sabia, pela longa tradição remontada pelo menos até Saigyô, por volta de 1200 de nossa era de sua cultura, que a criação era sobretudo, ''fazer pelas coisas o que elas mesmos fariam por si próprias, se pudessem''. De que a arte é, sobretudo, a vivência e a experiência da percepção do presente.
É por isso que a poesia nas obras de um autor não envelhece, nem morre. É sempre a experiência primordial de quem sente, pela primeira vez, algo que foi construído há tanto tempo. Uma poética estará sempre inteira e viva como se fosse a primeira vez que uma flor desabrochasse diante dos nossos olhos. Tem o cheiro, a cor, a temperatura, o frescor do momento em que foi percebida.
Podemos discutir o conceito, a linguagem, a maneira de comunicar nossos afetos, porque isso muda com o tempo. Se transforma conforme os meios e a cultura. E mais, adicionamos os argumentos que somos capazes de enxergar, com o passar do tempo, mostrando que aquele feito continua a reverberar em sintonia com o mundo. E todo conceito, linguagem e meio utilizado para comunicar tornam-se parte intrínseca desta trama de significados. Seja o ''Adão e Eva expulsos do Paraíso'', de Michelangelo, na Capela Sistina, em que, ao mesmo tempo em que a cobra seduz Eva, ela já está com a maçã nas mãos, os pés direcionados para fora do Paraíso, o corpo voltado a Adão, como uma rede de eventos simultâneos acontecendo em apenas uma imagem. Seja como a ''Spiral Jetty'', de Robert Smithson, feita pelo menos 400 anos mais tarde, onde ele construiu uma espiral de pedras no Lago Utah, em Nevada, EUA, que reverbera com toda a tradição indígena e toda arte ocidental, daquele lago sagrado, cor de coca-cola, poluído pelas grandes industrias, que aparece e some sob as águas.
A criação não é uma questão do ego. ''A poesia toda é uma viagem ao desconhecido''. Não se conhece um caminho sem fazer seu percurso. É pelo nosso corpo que a vida se faz sentida. Que territórios são traçados. E é na insignificância deste ''deixar-se atravessar'', que é tão simples e tão complexo, que a criação toca na alma desse vazio, fazendo-nos fluir.
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