Uma trama bem escrita
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de junho de 1998
Estelio Feldman 
Fiquei em dúvida sobre se seria adequado escrever que Dívida de Sangue, livro de Michael Connelly, é um dos melhores policiais que li em toda a minha vida. Seria talvez melhor apenas enfatizar que é um dos melhores que li nos últimos tempos. O interessante é perceber que, felizmente, livros instigantes continuam a ser criados, que a capacidade humana, que se revela em todos os campos, continua presente e que, apesar das mudanças - ou até por causa delas - bons livros continuam a ser escritos.
Dívida de Sangue pode ser considerado um moderno romance policial, por causa do tema base, o transplante de coração. Mas também se situa na faixa dos policiais tradicionais, com a investigação cheia de nuances, levando o leitor a fazer parte mesmo dela, com o autor oferecendo elementos que constituem chaves para a solução do enredo.
A trama é simples: um ex-agente do FBI, especialista na caça aos chamados criminosos em série, recebe um coração, em transplante e se aposenta. Daí, acaba descobrindo que o órgão que recebeu pertenceu a uma jovem senhora que foi assassinada em um assalto. A irmã da moça o procura e praticamente exige, como uma espécie de agradecimento, que o antigo agente descubra e leve à prisão o responsável pelo assassinato da doadora.
A partir daí, começa um romance muito bem escrito, abrindo-se um enredo inesperado, que vai em um crescendo até atingir o grande e curioso final. Michael Connelly consegue levar o leitor, sem sobressaltos, mas mantendo sempre o interesse por uma investigação que tem todas as características do romance policial (incluindo aí o natural confronto com os policiais, que não gostam da intervenção de um ex-federal), tudo muito bem temperado e conduzido.
Para quem gosta do estilo, um livro muito bom. Para quem não aprecia muito, talvez a oportunidade de travar contato com ele, superando eventuais preconceitos. Para todos, Dívida de Sangue é uma grande pedida.


