Concluídas as filmagens do Carnaval, Welles passaria a registrar um tema que realmente o seduzira. A odisséia trágica de quatro pescadores que viajaram de Fortaleza ao Rio sem bússola, guiados unicamente pelas estrelas, um feito inigualável na história da navegação. A história havia sido apresentada em uma reportagem da revista Time, sob o título ‘‘Four Man on a Raft’’ (Quatro Homens em uma Jangada). A conclusão do repórter classificava a iniciativa dos pescadores como ‘‘uma viagem homérica que exigiu um milagre político’’.
O objetivo dos jangadeiros era pedir ao presidente Getúlio Vargas melhores condições de trabalho, já que os pescadores não usufruíam de nenhum direito trabalhista, como a aposentadoria, por exemplo. Ao chegarem ao Rio, foram ovacionados por uma multidão que lotou a praia de Guanabara. Vargas os recebeu e prometeu atender os pedidos.
Em 13 de junho de 1942, Welles parte para Fortaleza com uma equipe reduzida – o produtor associado Dick Wilson e o fotógrafo húngaro George Fanto. Sabendo que o filme não iria atrair muitos turistas para o Brasil, Vargas pede a RKO que cancele o projeto. O estúdio aceita e comunica Welles, que se recusa a abandonar seu projeto. O cineasta é demitido, tem pouco mais de dez mil dólares e uma história extraordinária para contar.
Com apenas 45 minutos de um filme de 35 mm em preto-e-branco, e uma câmera Mitchell, Welles inicia as filmagens que contariam a história de Jerônimo, Tatá, Preto e Jacará, os quatro heróis da nação. Não podendo captar o som, sem o aparato tecnológico comum em Hollywood, o cineasta improvisa. Para filmar abaixo dos atores (o efeito contra-ploungeé), Welles situa o elenco em uma plataforma e enterra sua Mitchell na areia.
Assim como procedeu em sua lendária montagem de ‘‘MaCbeth’’ no Harlem, Welles dirige atores que nunca haviam visto uma câmera, muito menos um filme. Reencenando a chegada dos jangadeiros ao Rio, ocorre a tragédia. Uma onda tomba a jangada em que estavam os quatro pescadores. Três atingem a praia. Um morre: Jacaré, o líder que havia se tornado um herói nacional.
Perturbado pelo impacto do acidente, Welles torna-se recluso durante as filmagens. Não conversa com ninguém, apenas olha a paisagem e o terreno. Os jornais creditam ao cineasta a morte de Jacaré. Um macumbeiro chega a amaldiçoar Welles ao lançar um flecha no roteiro do filme.
Após dois meses, o diretor concluia a produção. Parte para os EUA, não convence a RKO a lançar ‘‘It’s All True’’. Passa a trabalhar como ator. Compra os direitos do filme. Tenta um financiamento para lançá-lo comercialmente, mas nenhum estúdio o apóia.
Welles desiste. Nunca viu os copiões do filme. Nunca mais se fixou em Hollywood, sobrevivendo de convites esporádicos. Em 1985, o produtor Dick Wilson encontra o filme em um depósito da RKO. Oito anos depois, realiza o documentário ‘‘Nem Tudo É Verdade’’, mostrando todo o percurso trágico do filme. No mesmo ano, Rogério Sganzerla lança sua visão sobre a vinda de Welles ao Brasil com o mesmo título posteriormente adotado por Wilson: ‘‘Nem Tudo É Verdade’’. Curiosidade: o londrinense Arrigo Barnabé interpreta Welles.
Em 1998, Sganzerla centra seu olhar na relação que Welles teve com a morte de Jacaré. O filme ‘‘Tudo É Brasil’’ mostra a frustração do cineasta, que, após realizar uma obra experimental (‘‘Cidadão Kane’’) e um filme grandiosamente clássico (‘‘Soberba’’), se aventura por um cinema artesanal, que seria o grande mote das novas cinematografias do pós-guerra. Tudo que o neo-realismo italiano, o free cinema inglês, a nouvelle vague francesa e o cinema novo brasileiro traziam de original já havia sido apresentado por Welles em um filme nunca lançado comercialmente. E pouco conhecido no mundo inteiro, até hoje. Há uma versão em DVD, lançada em 1985 em laser disc nos EUA, e relançada em DVD e VHS recentemente. Mesmo com a recuperação do filme, poucos conhecem a sua importância estética e histórica. Acreditem, é tudo verdade!! (R.S.G.)

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