Mais que um grande filme ‘‘Rocco e Seus Irmãos’’, de Luchino Visconti, entra hoje em cartaz no Cine Ritz, em Curitiba . Trata-se de uma obra-prima do cinema italiano de beleza quase inatingível. Rodado em 1960 – a avant-premiSre ocorreu naquele ano no Festival de Veneza –, o filme ganhou cópia nova num empreendimento da distribuidora Pandora, com seus 182 minutos originais.
A reestréia nacional do filme se deu há um ano, em São Paulo, e mereceu do crítico Luiz Carlos Merten (‘‘O Estado de São Paulo’’) um elogio raro: ‘‘Se existisse uma categoria de filmes para se assistir de joelhos, em adoração, ‘Rocco’ com certeza estaria entre os primeiros’’.
Nenhum exagero por parte do jornalista. A obra de Visconti, inspirada no romance ‘‘Il Ponte della Ghisolfa’’, de Giovanni Testori, mostra a lenta dissolução de uma família, que vem do interior tentar a sorte na cidade grande. A mãe, acompanhada da prole, chega a Milão para encontrar Vincenzo, o quinto filho que está empregado numa indústria. Assim começa ‘‘Rocco e seus Irmãos’’, com os Parondi saltando do trem para mergulhar numa nova vida.
A matrona Rosaria (Katina Paxinou), vergando luto pela morte do marido, é daquelas típicas senhoras que passam a existência tentando manter os pimpolhos sob suas asas. Desgaste inútil, porque por mais que anseie delimitar o mundo que julga ideal para seus ‘‘meninos’’, cada qual vai seguir o seu destino. Tem mais: a vida não é complacente nas marés de dores e entusiasmos dos apaixonados.
O elenco não tem altos e baixos – todos estão num mesmo patamar de excelência. A atriz Katina Patichou vive com intensidade a angústia da mãe que se orgulhava em espalmar a mão e dizer que seus filhos eram como os cinco dedos: unidos. Uma ilusão que ela tenta manter inutilmente.
Nessa volúpia interpretativa estão Alain Delon (Rocco), Renato Salvatori (Simone), Max Cartier (Ciro), Luca (Rocco Vidollazi), Spiros Focas (Vincenzo) – o núcleo familiar – e Annie Girardot (Nadia), a mulher fatal que se interpõe entre Rocco e Simone. A bela Claudia Cardinalle tem rápida passagem no papel de Ginetta.
Como uma crônica, ‘‘Rocco e Seus Irmãos’’ abre espaço para várias leituras, especialmente as sociológicas. Mas para quem vai ao cinema somente assistir a um filme com boa história, sem teses acadêmicas na cabeça, o que se vê é uma tragédia inesquecível.
Simone conhece uma prostituta, Nadia, e se apaixona por ela. Aquilo que deveria ser um encontro eventual transforma-se em algo mais sério, tornam-se amantes e a vida segue até o dia em que a mulher decide abandoná-lo. O rapaz não aceita ser passado para trás, e, pior ainda, Nadia acaba se envolvendo com Rocco.
Rocco é um moço puro, de índole boa e ingênua. Um de seus irmãos, Ciro, afirma em certo momento que ele é um santo. De nada vale essa santidade, e vendo que a família está ruindo, na tentativa de sustentá-la e protegê-la vai ser lutador de box – justamente ele, que detesta violência. Segue a mesma carreira do consanguíneo agora seu inimigo.
O ciúme doentio e a mágoa pelo amor frustrado arrasta Simone para o inferno; nessa queda o sofrimento vai abrindo rupturas na outrora solidez dos Parondi. Num ato fulminante, prepara uma emboscada para o irmão – comparsas agarram Rocco, e o obrigam a ver Nadia sendo currada na lama. Mais que a chuva de socos, dói-lhe a alma. E ainda não é o fim.
Por essas e outras, há poucos anos os zelosos executivos americanos acharam por bem botar o dedo no magistral clássico italiano, ‘‘Rocco i Suoi Fratelli’’, mutilando-o em 38 minutos – dos 182 originais, caiu para 144 minutos – e trocando os diálogos originais pela dublagem em inglês. A Globo Vídeo lançou-o no Brasil (Rocco and His Brothers), sob protestos gerais da crítica pelo arremedo em que se transformou a obra. A distribuidora Pandora reabilita o filme, com o respeito que ele merece.
Raramente a velha fita era programada. Em São Paulo ele foi visto numa mostra, há nove anos, com cópia emprestada da Cinemateca Uruguaia e sem legendas. Há mais de 20 anos o antigo Cine Ópera, de Curitiba, programou-o para uma sessão da meia-noite.
O amplo cinema, ainda nos moldes antigos, com centenas de poltronas, ficou superlotado por uma platéia interessada em ver e rever uma das referências cinematográficas. Espera-se que agora, tanto tempo depois, as novas gerações se unam às mais velhas, não só para prestigiar como também se emocionar com um dos mais sensíveis momentos da história do cinema. Na tela está o homem em todo seu esplendor de céus e infernos, e não os virtuais efeitos visuais.
‘‘Rocco e Seus Irmãos’’, de Luchino Visconti. Com Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Max Cartier, Rocco Vidolazzi, Spiro Focas. Cine Ritz (Rua XV de Novembro, 132), às 14h30, 17h30, 20h30. 14 anos.

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