Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Se o Diabo não fosse de origem tão ancestral, milenar e perdida na noite sobrenatural dos tempos, com toda certeza teria sido uma invenção de Hollywood. E ele continua mais presente que nunca, estrelando uma variedade de novíssimas produções recém-lançadas, em lançamento ou em pós-produção. O abre-alas da retomada deste filão inegavelmente de forte apelo visual - por não se conhecer a persona diabólica, todas as licenças artísticas são permitidas - é o thriller sobrenatural ‘‘Fim dos Dias’’, em exibição a partir de hoje em circuito nacional (confira programação nesta página). Na semana que vem, o demo da vez vai estar em ‘‘Stigmata’’.
O filme promove o encontro que os produtores já batizaram de ‘‘memorável’’: Arnold Schwarzenegger, quebrando o gelo dois anos depois de complicar a vida de Batman como o vilão Mr. Freeze em ‘‘Batman e Robin’’, e sua excelência o Príncipe das Trevas, o Demônio em pessoa, ou melhor, na pessoa do ator Daniel Byrne, apresentado como o ‘‘Homem’’. Para gravar na memória, antes de comprar o ingresso: Schwarzie é um ex-tira, amargo, alcoólatra, com o premonitório e muito apropriado nome de Jericho Cane. Desiludido com a morte da mulher e da filha, ele sobrevive como free-lancer trabalhando para uma empresa de segurança. Um dia ele salva uma jovem de 20 anos, Christine (Robin Tunney), e sua vida muda. Como protetor da garota no varejo, e da Humanidade no atacado, ele logo irá se transformar num espécie de São Miguel relutante, invadindo o reino do sobrenatural inaugurado pela chegada de Satã à Terra. A missão do Mal é levar para a cama da ainda virgem Christine antes da meia-noite da passagem do milênio. Se a união for bem-sucedida, Satanás terá poder sobre Céu e Inferno.
Como se nota, o predador em ‘‘Fim dos Dias’’ não é um alienígena qualquer, mas a entidade maligna suprema, o arquivilão. Para exterminá-la ou, conhecendo-se o respeitável currículo de Belzebu, apenas neutralizá-la pelo menos até um próximo filme, o personagem de Schwarzenegger empunha a fé e uma Glock 9mm. Mas parece que a fé acaba levando nítida vantagem, a julgar por um comentário do ator. Segundo ele, o filme surgiu como uma oportunidade de mudança em sua imagem: ‘‘Há um momento em End of Days em que meu personagem diz a um padre que, entre a fé e a arma, ele fica sempre com a arma. Até agora, eu sempre fui bem-sucedido com o poder de fogo - não apenas meus personagens, mas eu, Arnold. Mas aprendi que eu não posso vencer com armas. Tenho que jogá-las fora.’’ A declaração, que deve ter abalado o belicoso Charlton Heston em sua cruzada de grosso calibre, é fruto de um surto de religiosidade que há algum tempo vem acometendo ricos e famosos de Beverly Hills, como Tom Cruise, John Travolta e o próprio exterminador, também um democrata agora preocupado com uma imagem pública potencialmente presidenciável.
‘‘Fim dos Dias’’ seria dirigido por Marcus Nispel, que abandonou o projeto cinco semanas antes do início das filmagens. Para o seu lugar foi chamado Peter Hyams, um dos mais eficientes e impessoais diretores de Hollywood, aquele profissional que seria conhecido, há algumas décadas (antes da revolução tecno), como artesão competente. Aquele factotum para quem não existem restrições quanto a gênero, roteirista, produtores, atores e técnicos. Hyams, também diretor de fotografia, é homem de ação comprovada, e dele pode-se eventualmente esperar certa dose de esperteza capaz de alterar, para melhor, um produto com poucas chances de sobrevida artística. Entre seus títulos mais interessantes estão ‘‘Capricórnio Um’’, ‘‘Outland - Comando Titânio’’, e ‘‘Esquadrão da Justiça’’, este um perturbador thriller policial-judiciário sobre um aparentemente pacato grupo de juízes que, impedidos legal e tecnicamente de aplicar a lei e prender delinquentes, criam um esquadrão da morte e promovem a justiça do gatilho.
No elenco do filme, especial atenção para a atriz Robin Tunney como a predestinada ao leito com Satã. Aos 27 anos de idade, já tem em seu currículo uma Coppa Volpe como melhor atriz do Festival de Veneza de 1996, pelo filme ‘‘Niagara, Niagara’’, do diretor independente Bob Gosse. Não é bobinha e sabe o que faz, mesmo com o Diabo em seu encalço.‘‘Fim dos Dias’’ é o carro-chefe da new-wave diabólica preparada para engordar o réveillon de exibidores de todo o mundo
DivulgaçãoCena de ‘‘Fim dos Dias’’: o sobrenatural volta às telas com Schwarzenegger no papel principal

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