Uma surpreendente DEBUTANTE
Nelson Sato
Primeiro disco de cantora é, quase sempre, uma temeridade no Brasil. Há, por aqui, uma linhagem tão vigorosa de antecessoras que a tentação da comparação derruba de saída muitas aspirantes.
Mesmo assim, a cada temporada multiplica-se o número de candidatas ao estrelato - todas disputando produtores, arranjadores, músicos de estúdio, repertório e um público infiel. Curiosamente, a inclusão em trilha de novela tem servido como principal plataforma de lançamento e divulgação de novatas.
Algumas conseguem emplacar a faixa em rádio, para depois sucumbirem ao ostracismo e ao circuito das casas noturnas onde se iniciaram. A mineira Ana Carolina, 24 anos, parece seguir o perfil. Se vai repetir o destino ingrato de muitas, é outra história.
Ela acaba de lançar um CD homônimo cujo carro-chefe é a canção Garganta, incluída na trilha de Andando nas Nuvens, novela das sete da Globo. A música revela uma cantora de timbre grave acompanhada de um violão não menos potente. Foi feita para ela pelo compositor Totonho Villeroy. Aprendi a me virar sozinha / E se eu tô te dando linha /É pra depois te abandonar, diz um trecho da letra.
Produzido por Nilo Romero, o álbum revela uma debutante surpreendente aqui e ali, notadamente ao revisitar composições já gravadas por vozes ilustres como Gal Costa e Milton Nascimento. Há audácia no próprio fato de ela cantar, compor e tocar - o que já define uma personalidade rara num meio povoado de rivais que se limitam a interpretar canções alheias. Das 15 faixas, cinco são de sua autoria.
Ana Carolina foi descoberta no palco do bar carioca Mistura Fina por Luciana de Moraes (filha de Vinícius), que a apresentou (através de uma fita-demo) a Jorge Davidson, diretor artístico da gravadora BMG. Sua estréia no mercado fonográfico acontece depois de 5 anos se apresentando em palcos de Juiz de Fora (cidade natal) e do Rio.
O disco traz a participação do percussionista Marcos Suzano na maioria das músicas. Entre as faixas assinadas pela cantora-compositora, duas se destacam: Armazém, com arranjo exclusivamente percussivo lembrando as levadas - meio funk, meio repente nordestino - do grupo carioca Pedro Luís e a Parede; e a balada A Canção Tocou na Hora Errada, com arranjo de cordas de Eduardo Souto Neto e participação de Paulinho Moska no violão de aço.
Moska colabora também na versão de Beatriz, de Chico Buarque e Edu Lobo, com ele e a própria Ana Carolina nos violões. É a grande regravação do CD ao lado da releitura dissonante de Alguém Me Disse (de Evaldo Gouveia e Jair Amorim) que mescla guitarras, seção de cordas e bandoneon. Ela garimpa ainda o pop da geração 80 reinterpretando sem grande brilho Lulu Santos (Tudo Bem) e Arnaldo Antunes (Agora ou Nunca).
Em Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque e Tom Jobim, a cantora emite seus graves acompanhada apenas de acordes secos de guitarra, que ela mesmo toca. Fica parecendo demais Cássia Eller, assim como em outras faixas soa a Zelia Duncam. Bem, quem disse que seria fácil se safar das influências já no primeiro disco?





