Uma síntese do cinema
La Virgen de la Lujuria - Mexicano de Arturo Ripstein. Cineasta mais importante, e também o mais odiado em seu país por seu cinema duro e sem concessões, Ripstein ganhou há menos de um mês com ''La Perdición de los Hombres'' o Kikito de melhor filme latino no Festival de Gramado, em justa e corajosa decisão do júri. ''La Virgen...'' , ambientado na Cidade do México nos anos 40, é o retrato detalhado de uma obsessão amorosa, a paixão não correspondida de um homem solitário por uma prostituta autodestrutiva. É também um filme político, que disseca a relação de exilados políticos com a pátria - no caso, espanhóis perseguidos por Francisco Franco. Ripstein ama os tempos longos, solicita muito ao espectador mas ao final lhe devolve dez, cem vezes mais do que pediu.
Dom Durakov (A Casa dos Loucos) - Russo de Andrei Konchalovski. Num manicômio nos confins da fronteira entre Rússia e Chechenia, a jovem Janna se refugia em sua paixão pelo pop-star Bryan Adams (em especial participação auto-irônica, cantando a música-tema de ''Don Juan de Marco''). Mas quando explode a guerra entre os dois países, a presença de um soldado checheno muda o foco da paixão de Janna. Baseado em fato real ocorrido em 1995, o filme traz evidentes ecos fellinianos e também influência notória de Emir Kusturica. A descrição picaresca da vida no manicômio se mescla à narração dos horrores da guerra, e a farsa às vezes vai longe demais e se torna de difícil controle.
Velocidade Máxima - Italiano de Daniele Vicari. Os donos da casa batem o ponto, cumprem a jornada de trabalho com eficiente burocracia e ficam por aqui mesmo, provavelmente de mãos abanando. Dono de oficina contrata jovem e talentoso mecânico. De dia trabalham, à noite tiram racha com outros candidatos a emergentes sociais. Problemas financeiros, o primeiro amor, esperanças, desencanto e desilusão. Vicari fica sem saber se faz drama ou comédia. Seus espertos diálogos em ''romanesco'' e situações engraçadas fizeram a alegria da platéia conterrânea. Por outro lado parece um filme de ação clássico, com típica dinâmica hollywoodiana. A idéia talvez fosse trabalhar mais a fundo a cultura do automóvel como religião, a competitividade, potência mecânica & virilidade. O problema é que tudo é muito raso, e se roda muito para chegar ao mesmo lugar.
Meili Shiguang (The Best of Times) - Coreano de Chang Tso-chi. Perto das grandes obras dos diretores taiwaneses contemporâneos, este filme até que é bem discreto em sua tentativa de fazer crítica social a partir de uma realidade que existe na periferia da cidade grande. A história se debruça principalmente sobre dois rapazes de Taipei, primos nascidos em famílias remediadas. Não são jovens inquietos e metropolitanos como aqueles mostrados pelo diretor Hou Hsiao-Hsien e nem os produtos da nova economia como os que habitam o cinema de Edward Yang. Wei e Jie acabam entrando numa vida de crimes, com resultados previsíveis. Um filme curioso, mas que não entusiasma.
Nackt (Nus) - Alemão de Doris Dorrie. Uma das mais ativas e importantes cineastas européias, Doris Dorrie apresentou em Veneza mais um de seus estudos sobre vícios privados e virtudes públicas. Três jovens casais em crise de realacionamento se reúnem para jantar. Durante a conversa, o desafio: de olhos vendados, nus, os seis devem se apalpar para ver se, somente com as mãos, o parceiro reconhece a parceira, e vice-versa. O jogo erótico acaba por conduzir a algumas revelações. Comédia dramática com certa sofisticação e algumas poucas boas idéias, o filme não vai muito além das ''sitcom'' americanas, particularmente um certo tipo abundante de séries televisivas estilo ''Friends'', ''Sexo na Cidade'' e outras menos votadas.
Fuhrer Ex - Alemão de Winfried Bonengel. Mais um argumento para justificar o momento delicado do cinema da Alemanha. Inspirado na história verdadeira do ex-neonazista Ingo Hasselbach, a rigor o filme não tem o que fazer por aqui. O argumento é sobre dois amigos que tentam fugir pulando o muro - estamos no final dos anos 80 -, são presos e vivem o inferno na prisão, onde neonazistas e comunistas se confundem com depravados. Depois da queda do muro, agora em liberdade, os dois se reencontram, mas com papéis políticos invertidos. Sem qualquer estilo, mal roteirizado, confuso e vulgar,
''Fuhrer Ex'' se parece muito com um daqueles dramas de cárcere televisivos tipicamente americanos a que (não) se assiste em casa como alternativa anti-insônia em precário fim de noite.





