Uma senhora quadrilha
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de junho de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha2 

Em tempos de #MeToo e #TimesUp, a produção hollywoodiana deu mostras que está bem acordada e rápida nos reflexos. Aproveitando o momento do protagonismo feminino, deu à luz a este "Oito Mulheres e Um Segredo", filme no qual as mulheres dão as cartas. Nem por isso "Oceans Eight" se mete a feminista. E deixa isso claro logo de saída, quando Debbie Ocean, a personagem de Sandra Bullock, o cérebro do golpe do século (pelo menos até agora, mas logo-logo virá trama ainda mais milionária), furta batons e perfumes numa grande loja de cosméticos. Questão de prioridades do sexo forte, que cuida do glamour antes de esvaziar os cofres alheios.
Depois de um bom tempo gestando o plano na penitenciária, Debbie, irmã daquele Danny/George Clooney da refilmagem de "Onze Homens e um Segredo" (2001), está pronta para por em prática aquilo que aprendeu com as malandragens da família Ocean em três filmes de Steven Soderberg os outros são de 2004 e 2007. E o universo era então quase inteiramente masculino, misoginia quebrada por Julia Roberts.
Como nos filmes precedentes, o que também não falta agora é elenco. Ou como diria o espectador machão, último dos moicanos: "esta mulherada está impossível". Ou um elogio mais pesado, bem mais pesado...
O plano das meninas é se apoderar da obra-prima da joalheria, um colar Cartier avaliado em 150 milhões de dólares. O cenário dos filmes anteriores hotéis-cassinos de Las Vegas foi substituído aqui pela exclusivíssima gala anual do Metropolitan Museum de Nova York. É como se o ambiente reproduzisse ao vivo, a cores e aromas das mais diversas grifes, sofisticadas edições das revistas Vanity Fair e Vogue.
A quadrilha montada por Debbie e sua amiga Lou (Cate Blanchett) é um leque de correção política, para não sair do tom agora imperante no show business, todo multiétnico e reverente às minorias. Todas as ladies convocadas têm lá suas expertises, como a surpreendente e enfumaçada rasta-hacker Rihanna (além do trabalho na quadrilha, ela rouba todas as cenas em que aparece).
Muito divertidas também estão Anne Hathaway e sua designer de moda pessoal, uma Helena Bonham-Carter aparentemente saída de um set estapafúrdio de um filme de seu ex-marido, o não menos bizarro Tim Burton. Como produção, "Oito Mulheres e Um Segredo" é impecável. Mas a mão indiferente, neutra do diretor Gary Ross ("Jogos Mortais") não encontra o melhor caminho para construir o desejado suspense. Que se esperavam qualquer estilo, desde que fosse genuíno, é bom que se diga. Mas não é: há leveza em demasia, tudo está muito bem orquestradinho, a previsibilidade reina absoluta. Além das ladras de saias, nada de novo sob o sol.
Não chega a ser um thriler, ficando nas franjas da comédia de assalto. É um filme que não assume riscos, esperando sempre que o espectador acate aquele próximo movimento. Fazem falta as qualidades de Soderberg leveza, ritmo, swing. Mais classe, como aquela que havia de sobra lá atrás, bem lá atrás. Em 1960, mais precisamente, quando o grande Lewis Milestone dirigiu nada menos que The Rat Pack Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford, todos orquestrados pela sonoridade genial de Nelson Riddle. Aqui Soderberg assina apenas a produção executiva. E simplesmente as estrelas masculinas foram trocadas pelas femininas. E as participações especiais (Katie Holmes, Kim Kardashian, Heidi Klum) são... as participações especiais.
Para prestar atenção. Sandra Bullock e Cate Blanchett parecem disputar tacitamente um concurso de cirurgias plásticas. Lívidas, quase cerúleas: alguém se lembra da dupla antes dos passeios pelo botox? Bem, pelo menos La Bullock está menos parecida com Michael Jackson. Ponto a favor.


