Talento, dignidade e humildade talvez sejam os principais motivos da carreira vitoriosa de Fernanda Montenegro que não se deixa deslumbrar com o rótulo de estrela. Atualmente ela é a protagonista da novela global ''As Filhas da Mãe''
Leandro Calixto
TV Press
Fernanda Montenegro poderia usar a prerrogativa de se comportar como uma ''estrela''. Dona de uma trajetória invejável na televisão, no teatro e cinema nacional, Fernanda faz questão de se colocar como apenas mais uma atriz no mercado. ''Nesta profissão não dá para se deslumbrar porque a gente tem de matar um leão a cada dia'', pondera, humilde. Enquanto degusta um pão de queijo e toma um copo de água, após cinco horas de gravação, ela pára atentamente em frente ao televisor para acompanhar sua atuação em ''As Filhas da Mãe'', onde interpreta a matriarca Lulu de Luxemburgo. ''Tenho de assistir, pelo menos, um pouquinho para ver se estou atuando direito'', justifica modestamente.
A preocupação com seu desempenho tem, pelo menos, uma justificativa. Há quatro anos Fernanda não participava de uma novela. A última foi ''Zazá'', na qual interpretou o papel-título da novela de Antônio Calmon. ''Estava com saudades de viver todo este ambiente de gravação, além de ter sido um convite irrecusável. Mas tudo anda muito puxado'', queixa-se a atriz de 71 anos, ressaltando que a tendência daqui para frente é de reduzir cada vez mais o seu ritmo de trabalho. ''Já estou um pouco velhinha'', completa, aos risos. Apesar de se sentir assoberbada, Fernanda vem se dividindo entre a novela e o teatro. A atriz está em cartaz com a peça ''Alta Sociedade'', de Mauro Rasi, que vem percorrendo algumas capitais do país.
Ao final dos dois trabalhos - a novela e a peça -, a atriz brasileira que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 98 por ''Central do Brasil'' só pensa em descansar. Mas abandonar a televisão, como chegou a ser cogitado quando finalizou sua participação em ''Zazá'', está descartado. ''A cada trabalho que faço digo que vai ser o último. Mas sou muito viciada no que faço'', completa.
Com tantos anos de experiência e uma carreira consagrada, a senhora ainda é crítica quando se vê no vídeo?
Tem de ser crítica sempre. Nunca consigo me ausentar do ideal que eu projeto. Sempre exijo muito de mim para não cometer qualquer tipo de deslize. Procuro sempre executar meu trabalho direito. Às vezes, me vejo no vídeo e percebo que não consegui me expressar direito. Então, fico imaginando que poderia ter feito melhor. No fundo, acho que tudo isso é uma disciplina. Adotar este estilo é uma maneira que encontrei de estar sempre bem comigo mesma.
A senhora estava há quatro anos sem fazer uma novela. O que a motivou a protagonizar ''As Filhas da Mãe''?
De vez em quando, ou seja, de quatro em quatro anos, fazer uma novela não pesa tanto quanto ficar fazendo uma produção na televisão a cada ano. É uma carga de trabalho muito louca. Só que este convite do autor Sílvio de Abreu e do diretor Jorginho Fernando veio de uma maneira tão carinhosa que não tive como recusar. Me dou muito bem com eles. Com esta dupla, já fiz novelas de grandes sucessos e que me deram um grande prazer, como ''Cambalacho'' e ''Guerra dos Sexos'', por exemplo. Gosto também do horário das sete e de fazer comédia. Então, me sinto muito feliz ao fazer esta novela.
Então, a senhora tem predileção por comédias...
Elas são mais leves de fazer. Imagine fazer um drama durante todo um ano? É muito difícil puxar lágrimas durante todo este período. Ainda mais todos os dias.
O fato de a novela e principalmente o personagem terem sido feitos especialmente para sua interpretação também pesou na hora de aceitar o convite?
Na verdade, a novela foi pensada em todo o elenco. Quando o Sílvio diz que foi pensando em mim é porque ele é muito generoso e simpático comigo. Não me considero a maior referência da novela. Referência maior de qualquer trama é o conjunto de atores. Não estou falando isto para fazer média com ninguém. O elenco que eles reuniram é de primeira. Não vou denominar cada um porque todos nós temos a mesma responsabilidade. Então, cada ator vai acabar tendo seu quinhão, igual ao outro. A novela tem um único ritmo. Outra vantagem é que este elenco também se dá muito bem. Quando não há problemas nos bastidores, o trabalho flui de uma maneira muito interessante.
A senhora sempre se posiciona de uma maneira humilde, mesmo sendo considerada uma das maiores atrizes do país. Às vezes, parece não ter a dimensão do que realmente representa...
Sinceramente, não. O que sei é que sou uma mulher e que estou nesta profissão há mais de 50 anos. A minha vida toda foi em cima do palco. Foi no teatro que me eduquei, me formei e construí uma família. Então, não tenho este tipo de deslumbramento. Quando fazem esta reverência, parece que a gente nasceu num estado todo burilado. Também é difícil falar sobre mim na terceira pessoa. Mas não vou fazer demagogia e dizer que vivo somente para minha profissão. Tenho minha vida particular, família e casa, que também são prioridades. Nesta profissão, não dá para se deslumbrar. Todos os dias a gente tem de matar um leão.
A senhora ainda sente esta necessidade?
Claro que sim. Este tipo de arte é muito escorregadio. Você trabalha no imaginário e na fantasia das pessoas. A gente não pode viver do que fez no passado. Isto fica numa prateleira.
Como recebeu a homenagem do Sílvio de Abreu, quando a sua personagem recebeu um Oscar logo no primeiro capítulo?
Fiquei muito sensibilizada. Ainda mais por ter recebido do Sílvio, que chegou a fazer uma participação especial na novela. O Sílvio sabe que chegar naquela primeira fila para concorrer ao Oscar, como aconteceu comigo e com o filme ''Central do Brasil'', já foi um grande feito.
A última novela que a senhora realizou foi ''Zazá'', na qual grande parte do elenco ficou insatisfeito com a trama. Qual avaliação que a senhora faz deste trabalho?
A Zazá, a personagem em si, foi muito deliciosa de fazer. Foi gostoso do princípio ao fim. Tanto que foi um trabalho que ficou na memória de muitas crianças. Até hoje, quando estou num aeroporto ou viajando, as crianças me chamam de Zazá. Ela foi muito bem intuída pelo autor. Mas a novela só por uma razão da qual não sei, foi bem até a metade e depois desandou. Acho que ela se estendeu demais. Teve mais de 220 capítulos. Na época, chegaram a dizer que não tinham outra novela para colocar no lugar. Só que apesar destes problemas, guardo com muito carinho a personagem.
Na época, também disseram que ''Zazá'' seria sua última novela...
Eu sempre penso nesta possibilidade quando estou terminando uma novela. Digo para tudo mundo que não vou fazer mais outra. Mas depois, chega uma pessoa com um convite tão carinhoso, como o feito pelo Sílvio de Abreu, que acabo entrando nesta aventura de novo. Uma aventura, aliás, para todos nós que estamos envolvidos. Então, acabo sempre aceitando. Sou viciada no meu trabalho. Não penso em deixar de fazê-lo por nada. Só que os anos vão passando. Então, preciso que o pique de trabalho seja um pouco acalmado. Sou uma senhora com mais de 70 anos. Ando me sentindo muito assoberbada.
E em relação ao formato atual da teledramaturgia brasileira, qual sua opinião?
Acho que as novelas têm muitas ''barrigas''. Uma hora dessas vai ficar insuportável. É preciso diminuir o ritmo um pouco. Mas infelizmente a indústria exige este formato. Me parece que se a novela for muito curta, ela não traz um retorno financeiro satisfatório para as emissoras. Então, os diretores e autores acabam seguindo este formato. Só que vai acabar saturando.
Como a senhora avalia a atual safra de atores no Brasil?
Tem muita gente boa por vindo por aí. Sem falar nos atores que já estão na batalha há tantos anos. Mas não vou citar nenhum nome em especial. Isto me incomoda muito. Porque depois que dou a entrevista e volto para casa, fico pensando naqueles que não citei. Mas é uma geração muito poderosa, sem dúvida alguma. A gente vê isto no ar. Eles têm prazer total no que fazem.

mockup