UMA SENHA PARA ESQUECER
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de agosto de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
A pergunta-resposta logo de início é sintomática. ''Sabe qual é o problema com Hollywood ? É que só produz porcaria''. Cerca de meia hora mais à frente, um dos personagens questiona outro: ''Que diabos estou fazendo aqui? Como é que vocês me colocaram nisso?''. Nada profundo, nenhuma conotação metafísica mas absolutamente tudo a ver com o que está desfilando em ''A Senha'', lançamento nacional desta semana pobre em atrativos (veja a programação de cinema na página 5).
Numa vã tentativa de ressuscitar o sucesso de ''Matrix'', o produtor Joel Silver contratou o diretor Dominic Sena (''Kalifornia'', ''60 Segundos'') e lhe entregou um precário roteiro de Skip Woods. Em ''The Swordfish'', John Travolta - com corte de cabelo eurotrash - aparece na pele do vilão Gabriel Shear, misterioso membro de uma igualmente misteriosa agencia governamental comandada por um senador americano (o dramaturgo Sam Shepard, num dos piores papéis em muitos anos). Shear, rico e todo-poderoso, pretende botar a mão em U$ 10 bilhões alheios: o dinheiro está num banco e o roubo será pela via cibernética. Para isso é compulsoriamente convocado, através de chantagem familiar, o ex-hacker Stanley Jobson (Hugh Jackman, o Wolverine de ''Matrix''). Ele deve decifrar os códigos de segurança que impedem o acesso ao dinheiro. Stanley acaba de sair da cadeia, e a ele é oferecida a oportunidade de ter a custódia da filha atualmente vivendo com a mãe atriz pornô. Outra razão que o leva a se engajar no projeto criminoso são os atributos de sereia do principal personagem feminino, Ginger (Hally Berry), um dos principais assistentes de Shear.
''A Senha'' é lento, pesado, se arrastando como um videogame interminável. Somente as duas grandes sequências de ação, que funcionam como uma espécie de capa e contracapa, abrindo e fechando o filme, são poderosas e espetaculares - mas ainda assim totalmente inverossímeis. Mas o grande fiasco aqui é John Travolta. É impressionante como ele suga a energia de cada cena em que aparece, parecendo sempre alheio, confuso e desinteresssado pelo papel, além de fisicamente também fora de forma. Jackman tem participação mais eficiente, apesar de penalizado com diálogos indigentes. E Hally Berry passa quase todo o tempo se vestindo, se despindo ou assumindo posições provocantes - um extra de U$ 500 mil foi para o extrato bancário da moça, por conta do banho de sol nos seios.
Visualmente, ''A Senha'' é uma desordem só. Os primeiros 20 minutos são ásperos e vigorosos, e a partir de então há uma abundância de verdes e amarelos levados à nauseante saturação. O comprometimento maior vem pela visão empobrecedora imposta por Joel Silver, um produtor sem outro interesse que não o de fazer dinheiro, seja como for. Neste caso, o filme entra pela culatra: orçamento de U$ 80 milhões para uma renda total de 68 milhões.


