Uma semana de atores
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de julho de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Ordem inversa. O melhor da safra recente, já nas locadoras, é Depp no neo-western lírico e existencial - ou seria um anti-western ? - do outsider Jim Jarmush. Dead Man é um filme que pode ser seriamente divertido se a aproximação for livre de preconceitos. É quase possível sair de alma lavada. Comportamentos mais enquadrados, no entanto, têm recompensa garantida com um thriller eficiente e uma bem comportada parábola sobre como vencer na América sem pisar no próximo. Mas o melhor é começar pelo ponto de vista independente e original de Jarmush, que à sua maneira muito peculiar realizou o necrológio ideal para Robert Mitchum, morto na semana passada.
Dead Man é a história de um contador, um contabilista, vivo, que é um jovem homem morto e que se chama William Blake mas que não é o alucinado poeta e pintor inglês William Blake. E que viaja com Ninguém, e que no entanto é alguém, um índio. Certo é que estão no Oeste norte-americano, o verdadeiro, aquele de fins do século 19. Mas antes de cumprir a trajetória mortuária, Blake sai de Cleveland e chega alguns quilômetros além do fim do mundo. Enterrou os pais, juntou dinheiro, seguiu de trem, chegou tarde. Seu emprego já não é mais dele, a moça com quem dorme pertence ao filho do velho empresário, mata para não morrer mais cedo e foge baleado, abandonando-se suavemente à morte próxima.
Um filme raro e atrevido, a começar pelas imagens em preto-e-branco.
Uma maneira bizarra de construir poesia, através desta inusitada espécie de hino à morte. Mas um hino que envolve, instiga, aguça, enfeitiça. Uma morte nem de longe importante, como uma trapaça a mais semeada no percurso da vida humana. Uma vida que não tem grande valor quando o herói é um dead man, um homem morto - excelente Johnny Depp, impassível e impenetrável Buster Keaton, trágico e hilário fugitivo da rápida justiça de seu país.
Uma mistura improvável, neste sexto longa-metragem de Jarmush. Hilariante às vezes, lancinante outras tantas, hipnótico quase sempre pelo ritmo de uma narrativa anêmica de tão econômica e pelos três únicos acordes saturados da guitarra de Neil Young, que acompanham as peregrinações deste morto-vivo. Um morto-vivo espremido entre seu companheiro de escapada, o índio Ninguém - anjo guardião deliciosamente sábio, e um pistoleiro, anjo da morte. Um morto-vivo ferido de morte num barco à deriva de encontro ao oceano, levando a bordo um homem morto que morre.
Experimente Dead Man. Tem jeito de filme-cabeça, mas passa antes pelo coração.
O Tom é JerryJerry Maguire é agente esportivo, atividade que consiste em tratar dos negócios, do talento e da saúde das pessoas representadas, candidatos a ídolos na maioria. Individualmente ele é eficaz, insensível e cínico. Como todos seus colegas de profissão. Socialmente, suas relações são superficiais. O personagem, vivido por Tom Cruise, não é nenhum modelo de retidão moral.
Até que um súbito ataque de escrúpulos o coloca no olho da rua. Despedido da superagência, logo Maguire vai descobrir que a vida de empresário franco-atirador - e honesto - não é lá tão ruim quanto parecia. Sua nova postura profissional atrai a admiração de uma jovem mãe solteira (Renee Zellweger) e de um jogador de futebol que passa a ser seu cliente (Cuba Gooding Jr.) O resto é mais ou menos previsível, mas nunca desprezível.
Entre análise de costumes e comédia romântica, Jerry Maguire (A Grande Virada, subtítulo esportivo na distribuição brasileira) é a versão moderna de um personagem tipicamente americano e regularmente atualizado: o vencedor a qualquer preço. E Cruise tem experiência no metiê, com títulos como Negócio Arriscado e A Cor do Dinheiro. Sua performance na especialidade é sempre muito boa.
Melhor ainda quando o personagem desacelera o cinismo e imprime uma linha de conduta realista a partir de certas constatações: a independência não é necessariamente uma vantagem; a parceria não é forçosamente venal; e o celibato não é fatalmente o preço da ambição.
Depois de passar alguns anos analisando meticulosamente o universo muito peculiar de agentes e empresários esportivos, o roteirista e diretor Cameron Crowe (Singles) decidiu que estava pronto para contar sua história. E passou a gastar quase outro tanto de tempo tentando convencer Tom Hanks a aceitar o papel-título. Não houve jeito, e a proposta acabou caindo nas mãos de Cruise, agora o Tom definitivo (embora Brad Pitt tenha sido sondado com certa insistência). O ator Cuba Gooding Jr., indicado para o Globo de Ouro de melhor coadjuvante, acabou levando merecidamente o Oscar de melhor coadjuvante. Convém prestar atenção nele, daqui para a frente. Depois de um início arrasador em Boyz N the Hood, de John Singleton, Gooding tinha ficado pelo caminho, até contracenar com Tom Cruise pela primeira vez em Uma Questão de Honra. Em Jerry Maguire ele é um arrogante jogador do Arizona Cardinals que decide arriscar sua carreira. Só para lembrar: o filme foi o único representante da grande indústria a receber as principais indicações para o Oscar deste ano. Só levou a de Cuba Gooding.
Resgate para GibsonLogo após a entrega do Oscar do ano passado, a Touchstone, uma das subsidiárias Disney (divisão de filmes adultos), lançou mão de uma dessas alquimias prodigiosas que mantém Hollywood na entediante supremacia da produção cinematográfica mundial. Através dos produtores Brian Glazer e Scott Rudin, a empresa conseguiu reunir, evidentemente a peso de ouro, de um lado o recém-laureado e bom moço Mel Gibson, um autêntico Braveheart para os padrões de bravura do cinema americano; e de outro o diretor da mesmam forma bom moço Ron Cocoon Howard, então recém-chegado de uma milionária jornada espacial dirigindo Apolo 13.
A junção dessas forças que se chocaram de frente na entrega das estatuetas em 96, além do concurso de um roteirista de peso (Richard Price) e de um respeitável elenco de apoio, resultou em duas horas de uma bem-sucedida experiência de ação e suspense. Foi como se eu estivesse filmando no Grand Canyon, brincou o diretor Ron Howard comparando as locações nova-iorquinas de O Preço de Um Resgate ao claustrofóbico set de Apolo 13.
O filme também proporcionou a Mel Gibson saltar da Escócia medieval para as ruas de Nova York. É alí que a máquina de matar - vem aí o quarto filme da série - reencontra o cenário urbano onde se desenrola seu drama familiar. Gibson é o magnata Tom Mullen, um opulento mega-empresário dono de companhia aérea. Tem uma bela esposa (Renee Russo), um belo filho (Brawley Nolte, estréia do filho do ator Nick Nolte) e uma vida profissional não muito transparente. Tem aspirações políticas. Tem poder e gosta dele. E então, numa movimentada manhã no Central Park, o filho de dez anos desaparece.
Se você é pai, este é seu pior pesadelo, disse Gibson com uma histórica autoridade de seis paternidades mas felizmente nenhum sequestro em família. Aterrorizado, o personagem entretanto não reage de maneira de maneira ortodoxa, para desespero do agente do FBI (Delroy Lindo), que age pela cartilha. Movido por uma espécie de ira divina, o que ele faz exatamente é pegar os dois milhões de dólares exigidos em troca do garoto, dobrar esta quantia e oferecê-la a quem trouxer o sequestrador.
Vivo ou morto. Duas circunstâncias fatalmente ocorrem durante o processo: uma crise conjugal e a retomada das negociações agora através do controle direto do próprio milionário, mano a mano, anunciado pela televisão. Na verdade, são os últimos 45 minutos que realmente interessam como cinema: ritmo e tensão de qualidade superior. Méritos especialmente para Gary Sinise, ator que vai colecionando sequestros de cenas inteiras onde atua como coadjuvante --Apolo 13 e Forrest Gump, para ficar com dois recentes.


