Uma semana de 22 para o século 21
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de fevereiro de 2002
Rodrigo Souza Grota Reportagem Local 
Se ocorresse nesse início de século, qual seria a proposta de uma semana de arte? Para alguns, ser moderno, mais do que nunca, significa reinventar as tradições
Mundo contemporâneo. Uma sucessão de fatos, não-fatos, idéias, lugares-comuns, teses, antíteses, sínteses, conceitos, preceitos, soluções e paradigmas. O mundo está diferente e permanece o mesmo. As pessoas não se reconhecem, não se buscam, mas continuam a se apaixonar e ser felizes (e infelizes).
O mundo está diferente daquele fevereiro de 22, em que artistas de todo um Brasil pré-industrial (e ainda agrário) resolveram se insurgir contra o que achavam uma arte morta, uma estética antiquada, que aceitava a razão como a única responsável pelo criar artístico. Mas o mundo também é o mesmo que presenciou aquela Semana de Arte de 22, o mesmo que não sabe se apóia o tecnicismo iluminista ou aceita a fúria dos ditos pós-modernos, já que no fundo, no fundo, o mundo é o mesmo a oscilar entre o imperialismo dos sentidos e a serenidade insegura do imaginário.
Diante desse cenário incerto, como seria hoje, 80 anos depois, uma semana de arte moderna? Quais seriam os paradigmas a serem derrubados? Qual seria a estética moribunda? Que belo deveria ser almejado? Existiria uma identidade brasileira a ser encontrada?
No início do século 20, o homem acreditava na ciência, nas artes e em Deus (não exatamente nessa ordem). Pensava a ciência como solução para a intempestividade da natureza. Considerava Deus o criador de toda a natureza. E achava que a arte poderia imitar essa natureza, reproduzi-la. Mesmo que esse cenário natural fosse distorcido, desfigurado, recriado, a imagem a ser apresentada por uma obra de arte era uma referência a algo real.
Surgem então movimentos que se consideram modernos: futurismo, dadaísmo, surrealismo, fauvismo, pós-expressionismo e cubismo. Todos se dizem contra a leitura usual que determina à poética o ofício do retrato do real, e, não, de sua transcriação. Era, em síntese, um movimento que regulamentava a liberdade total como princípio maior da arte. Em outras palavras, um movimento contra-cultura, adverso aos valores clássicos que atribuíam à arte a possibilidade de descrever as coisas como se sente que elas são. Para os modernistas, o artista poderia descrever algo para além do que se sente.
Entre os anos 60 e 70, surgiram os ditos pós-modernos. Esses rejeitam todos os sistemas de pensamento - da religião à ciência; de Freud a Marx, de Platão a Sartre. São contra qualquer possibilidade de se discutir uma verdade relativa a algum ente. Acham que a sucessão de imagens veiculadas pelos meios de comunicação de massa definem a realidade, ao invés de retratá-la. Gostam de misturar ficção com realidade e adoram nocautear verdades supremas.
E o Brasil, afinal, é moderno, pós-moderno, ou nem a isso chegou? A dificuldade dessa resposta reside inicialmente nas diversas definições inerentes ao termo moderno. Para o escritor argentino Jorge Luis Borges, moderno é tudo que se apresenta na produção contemporânea de uma sociedade. No Brasil, os modernistas lutavam contra toda a influência européia e de demais culturas. Queriam o fim das formas, desapego ao clássico e uma arte que realmente fosse nacional. O erro, nesse caso, é creditar à arte uma nacionalidade. Não há meios para se criar uma arte brasileira, pois cabe ao discurso poético trascender toda e qualquer realidade aparante, todos os costumes que se consolidarem. E isso, por meio de elementos presentes em todas as culturas. Como poderíamos afastar-nos da influência portuguesa usando a sua língua. O leitor pode advertir: fazendo como Guimarães Rosa, que criou um novo idioma. E não está errado o leitor. Mas Guimarães não ignorou todo o léxico que Camões nos cedeu. Ele criou a partir de cânones, ou seja, modelos já consagrados. Uma definição de moderno, então, poderia nos direcionar para a mesma idéia que o professor de cinema da Universidade de São Paulo, Ismail Xavier, apresenta em uma de suas teses: moderno é o artista que reinventa as tradições.
Ser moderno no Brasil de hoje seria então retratar nosso caos social e econômico com toda potencialidade que as artes clássica e neo-clássica preservam. Foi o que Gláuber Rocha fez ao recriar o sertão nordestino com elementos do barroco e da literatura de cordel em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Muitos outros artistas da semana de 22 também foram modernos, pois ironicamente eles utilizaram nunca se saberá se conscientemente ou de maneira inconsciente a riqueza da cultura clássica para olhar o mundo em que viveram. Assim o fez João Cabral de Melo Neto com a poesia espanhola. Portinari com Picasso, que por sua vez, bebeu em Bosch. E Villa-Lobos com Bach e o folclore brasileiro. Os artistas modernos de hoje poderiam então mostrar as incoerências do nosso dia-a-dia a partir de um universo infinito, que se compôs sabe-se lá como, pois quem saberia identificar como se desenvolveu a cultura clássica?
Desse modo, o público poderia ver finalmente qual é o Brasil que se vive todos os dias, em todas suas incongruências e encantos. Haveria um belo a ser reencontrado, já que é próprio da natureza resguardar um belo a ser descoberto. E esse conceito de beleza, que poderia ser traduzido como reencontro consigo mesmo, com nossa essência perdida, mostraria algumas verdades de nossa nação, as mesmas que, como descobrira o moderno Sérgio Buarque de Hollanda, nos tornam desterrados em nossa própria terra.


