Vistos e avaliados até agora 16 dos 22 filmes à caça do Leão de Ouro, nenhuma dúvida quanto à debilidade da seleção oficial de candidatos na segunda maior vitrine de filmes inéditos do mundo. E este é um rótulo que confere à organização e à curadoria peso excessivo e incômodo diante do panorama surpreendentemente desolador. E Veneza vinha de um quadriênio senão excepcional, pelo menos estimulante.
À exceção do italiano-brasileiro ''BirdWatchers - La Terra Degli Uomini Rossi'', solidamente bom, mas sem atingir aquele patamar dos fora-de-série que se espera sempre em manifestações artísticas como esta, as produções premiáveis que desembarcaram este ano no Lido são de uma irritante mesmice, para não dizer opacas, previsíveis, burocráticas, algumas desnecessárias, outras simplesmente precárias pela própria natureza de sua desmedida e ilegítima pretensão.
Assim, tanto por seus próprios méritos, mas também por conta da nebulosidade geral dos concorrentes, ''BirdWatchers'' repercutiu muito bem entre a crítica italiana e internacional que cobre a mostra. Na sessão de gala do filme na Sala Grande, com elenco presente, ao final foram dez minutos de aplausos calorosos, a chamada ''stand ovation''. Os principais jornais europeus destacaram as qualidades do filme e enfatizaram a sinceridade da denúncia, que expõe o estado de penúria das nações indígenas do Brasil, ameaçadas pela asfixiante presença dos grandes latifúndios e pela ineficácia de políticas públicas que garantam uma digna sobrevivência.
Na conta das decepções, trabalhos de realizadores da Europa e África abriram a semana com presença lamentável. O russo ''Bumazhny Soldat'' (Soldado de Papel) é uma sofrida (para os personagens e para quem assiste, não importa se crítica ou público) experiência. No Cazaquistão, 1961, época de transição no país, a URSS inicia seu programa espacial. O filme mostra os primeiros cosmonautas em preparação para a corrida espacial (Yuri Gagárin & cia) e procura refletir, através de um personagem atormentado, a tomada de consciência deste grupo, apanhado no contrapé entre o avanço tecnológico e o degelo político.
A boa idéia do argumento, no entanto, perde-se no tortuoso estilo do diretor Aleksey German Jr., que narra tudo em primeiros planos congestionados por insuportável verborragia e detalhamento de tosses e tropeções e cigarros e todo tipo de truques de interpretação - como cansam estes russos! Se vocês se lembram de um filme americano de Philip Kauffman chamado ''Os Eleitos'', este é seu distante equivalente da ''glassnost'', com uma overdose de neuras e uma infeliz, flácida releitura daquela genial encenação patchwork proposta por Robert Altman. Ou seja, perderam para os americanos não somente a corrida espacial, mas o jeito de fazer cinema inteligente e acima de tudo palatável. Diga-se: envolvente e não aborrecido.
Da França, o lamento vai para o anacrônico, asfixiante e particularmente enervante ''Nuit de Chien'' (Noite de Cão), que o alemão Werner Schroeter realizou a partir do romance homônimo do uruguaio Juan Carlos Onetti, que por sua vez se inspirou em episódio da guerra civil espanhola. Schroeter, autor celebrado pelo estilo anticonvencional e um dos responsáveis pelo Novo Cinema Alemão, carrega na consistência de sua maionese e entrega uma alucinante parábola sobre o amor, a guerra e o poder. O filme parece um fantasma saído diretamente do baú dos anos 1960, aquela mise en scène feita de delírios e alucinações. Como Onetti é tido como precursor do realismo fantástico, a coisa até que faz algum sentido no quadro geral de nonsense.
O tamanho da pretensão do etíope Hailé Gerima equivale à dimensão de sua queda. Como ocorre aqui com exasperante frequência, as idéias são ótimas, o problema é a sua conversão em narrativa cinematográfica. ''Teza'' se propõe a contar um bom período da história social e política da Etiópia por meio de um médico intelectual e idealista que se especializa na Europa ao tempo de uma ditadura (a de Selassié) e retorna ao país para encontrar outra, a do militar marxista Hailé Mengistu, recentemente condenado à morte por genocídio.
O diretor Gerima, uma das referências obrigatórias do cinema africano independente focado em ideais de identidade e liberdade, embora coerente com sua obra iniciada há três décadas, fez aqui um longo, arrastado e com frequência confuso relato sobre as vicissitudes contemporâneas de seu país. Um espaço fora de concurso talvez fosse o mais conveniente para este filme.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.

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