UMA SÁTIRA A QUEM NOS SATIRIZA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de outubro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br> De Londrina 
Quem já vivenciou sabe que a cena é constrangedora. Conhecer um político de perto, na maior parte dos casos, é constatar que ele não sabe do que fala, não crê no que promete, e não se preocupa em se apoiar nos clichês demagógicos. Pedir concordância verbal razoável chega a ser considerado quase um pedido utópico, já que nossos homens públicos acreditam que ''falar errado'' os aproxima do povo.
Sob essas características, o universo habitado pelos políticos brasileiros rende boas histórias, desde os matutos que se orgulham de sua esperteza até os ''inocentes'' que são levados pelo pragmatismo herdado de Maquiavel, aquela regra que atribui a superiodade dos fins em relação aos meios.
Conhecedor desse universo, o jornalista Claudio Humberto Rosa e Silva, ex-assessor do ex-presidente Fernando Collor de Mello, lança uma espécie de coletânea desses ''causos'' que marcam o nosso folclore político. O livro ''Poder sem Pudor'' (Geração Editorial, 286 páginas, R$ 31,80), é homônimo à coluna que o jornalista publica diariamente em 31 jornais de todo o País, incluindo a Folha de Londrina/Folha do Paraná.
Sobre a sua relação com Collor, Claudio Humberto já havia publicado ''Mil Dias de Solidão - Collor Bateu e Levou'', também lançado pela Geração Editorial. Nessa segunda obra, ele trabalha em parceria com o ilustrador da Folha de S.Paulo, Osvaldo Pavanelli, que consegue realçar as idiossincrasias de nossos políticos tão bem quanto a prosa leve de Claudio Humberto.
Figuras como Jânio Quadros, Juscelino Kubistchek, Adhemar de Barros (o primeiro a ser apelidado como ''rouba mas faz''), Leonel Brizola, Paulo Maluf, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Antônio Carlos Magalhães, Costa e Silva, Castelo Branco - todos políticos que invandem nossas casas ha anos e teimam em expressar suas incoerências, são apresentadas sem pudor pela caneta atenta do jornalista. Da sala em que redige a coluna diária, Claudio Humberto respondeu as perguntas enviadas pela Folha 2.
Em meio a tantas histórias pitorescas sobre o universo político, você acredita ser possível no Brasil algum homem público ser honesto?
Possível é, e certamente temos muitos exemplos, no presente e no passado. O problema são as tentações e as chamadas ''leis de mercado'', que são cruéis e implacáveis. Os políticos bem sucedidos no Brasil são os mais espertos, aqueles que se orgulham de enganar os trouxas, que fazem promessas que jamais serão cumpridas, usam da demagogia para aparecer nos jornais, fazem do achincalhe à honra alheia o meio mais seguro de garantir espaço na mídia. Quem poderia imaginar que políticos conhecidos por suas próprias roubalheiras pudessem virar, como viraram, xerifes da moralidade em CPIs, por exemplo?
O senhor foi porta-voz da presidência do país em um dos momentos mais conturbados na nossa história. Em algum momento, antes da queda de Fernando Collor de Mello, o senhor confiou absolutamente no programa para o país do ex-governador alagoano?
Sem dúvida, eu e os 35 milhões de eleitores que votaram nele. Aquele período foi um grande e doloroso aprendizado para o País. Hoje estou mais maduro e muito mais cético em relação aos políticos, por isso desisti deles.
O senhor acredita que há alguma relação no Brasil entre essa falta de pudor dos políticos e a falta de consciência do povo ao decidir sobre o futuro do País? A desonestidade de nossos homens públicos seria uma consequência do desinteresse do povo brasileiro pelas causas públicas?
Acho que a falta de pudor é inerente ao exercício da política, e esse não é um fenômeno apenas brasileiro. É só acompanhar a política nos países vizinhos e naqueles onde a imprensa exerce sua atividade com liberdade, nos Estados Unidos e na Europa. O despudor é amplo, geral e irrestrito. Não gosto da crítica que se faz à ''falta de consciência do povo'', acho que é injusta. O povo brasileiro é crente, simplesmente, e acaba sendo enganado pelos políticos. Político esperto é uma redundância, porque o exercício da política é privativo de espertalhões, da esquerda à direita,
Em muitos casos, as histórias que você conta acaba revelando mais da personalidade do político do que qualquer perfil que um jornalista possa prentender realizar. Esse modelo de ''contador de histórias'' não seria uma
boa alternativa para o noticiário político da grande imprensa, que por vezes
se vê pressionada para não revelar certas idiossincrasias?
É uma maneira saborosa de revelar a personalidade dos políticos e das figuras que interferem nas nossas vidas, melhorando-as, o que é raro, ou tornando-as um inferno, o que em geral acontece. É uma alternativa, sim, mas é preciso não perder de vista a exigência do factual, no trabalho do jornalista, o que nem sempre é engraçado ou curioso. O problema da chamada ''grande imprensa'' é que a notícia deixou de ser o seu foco fundamental.
Hoje em dia, com a competição e as exigências de mercado, os jornais são produto de uma sofisticada operação industrial que privilegia tudo, exceto a notícia. Passou a ser mais importante fechar na hora para não atrasar o processo produtivo, porque de outro modo o jornal não atinge toda sua área de influência, do que empenhar-se um pouco mais na obtenção da notícia exclusiva, do furo espetacular. Investigação exige tempo, e os grandes jornais já não têm mais tempo. Para compensar essa falta crônica de notícia, oferecem aos leitores CDs, dicionários, bíblias etc.
Sei que é uma pergunta complicada, mas... após tantos anos de convívio com políticos o senhor talvez possa responder. Que leva algum homem no Brasil a ser político?
Suspeito que é a necessidade de se dar bem na vida, ganhando fama, respeito, nome de rua e, se der, algum dinheirinho, canal de TV, concessão de rádio etc. O político está sempre no melhor dos mundos, porque passa a vida jurando que se dedica a um ''sacerdócio'' e que deseja apenas ''fazer o bem''. Ele só não conta que é o bem dele mesmo.


