Uma sátia à programação da TV
ReproduçãoNovelas, noticiários, esportes, programas de auditório...nada escapa ao crivo do jornalista Furio Lonza, autor do divertido Guia de Auto-Ajuda Para Quem Assiste TV, da Editora Ensaio. Num dos tópicos, ele satiriza o programa Você Decide, propondo a seguinte questão: Numa pacata cidade do interior, Teresa se apaixona pelo filho do verdureiro, neto de Jacó, sobrinho-irmão da mãe dela. O pai lhe conta que o verdureiro é parente próximo de Teresa, tia de Isabela, que repudia o namoro. A questão proposta é esta: você entendeu a história?.
O não vem do próprio Lonza, que explica ter elaborado o livro para mostrar exatamente o que a tevê exibe. Na verdade, fiz um antiguia porque o que os canais de tevê aberta oferecem ao público hoje é de péssima qualidade. Trata-se de uma vingança normal de qualquer pessoa que assiste a esta programação estúpida das tevês convencionais. Para escrever o guia, o jornalista levou três meses, período em que não deixava passar sequer um comercial. A trilha sonora é um elemento importante para a identificação do produto. Se for música italiana, o anúncio é de sorvete, se for música clássica, é desodorante. Se for sambão, é de cerveja, observa Lonza, no capítulo dedicado aos anúncios.
Ele diz que a análise se limitou às tevês fechadas, já que na época em que começou a fazer o guia as tevês a cabo não tinham tanta penetração. Agora estou preocupado, pois me parece que o Ibope vai começar a medir a audiência da tevê a cabo também. Programas bons podem acabar por isso, lamenta.
Segundo Lonza, as programações das tevês brasileiras não são nem melhores nem piores, em comparação com outros países. Mesmo sendo italiano, sou categórico ao dizer que a tevê da Itália é dez vezes pior do que a do Brasil, frisa. O jornalista lembra que o que diz se refere especificamente à programação e não à parte técnica.
Para ele, o pior da tevê são as novelas, e elas estão logo no primeiro capítulo do livro. É uma imbecilidade total, mas as mexicanas são ainda piores, frisa. Lonza salienta que não assiste tevê de jeito nenhum. Só vi mesmo durante os oito meses para compôr o livro, e de vez em quando porque minha mulher assiste. Mesmo assim, ele relaciona Beto Roquefeler e Roque Santeiro com as melhores já produzidas.
O que se vêHá alguns anos, Lonza participou do curso de roteiristas da TV Globo e ficou entre as duas duplas finalistas. Fiz uma adaptação de um livro meu, As Mil Taturanas Douradas. Perdi para a dupla que criou Malhação, lembra. Perdi meu tempo, mas é bom ter em mente que eu nunca vou saber escrever para a Globo. Os parâmetros que a emissora usa são coisas de louco. O programa do Ratinho e a Banheira do Gugu também são lembrados como referências negativas.
O jornalista verifica que entre os produtos de alguma qualidade estão os telejornais da Cultura e da Bandeirantes. O Jornal Nacional não passa de uma grande ficção, destaca, e acrescenta: Eu posso até estar colocando a coisa de uma forma muito negativa, mas acho que a tevê só está emburrecendo ainda mais o povo brasileiro. Outro dia, ouvi uma atriz muito famosa dizer pra mim fazer. E, recentemente, um ator disse a seguinte bobagem: a fulana está com a auria muito grande.
Lonza verifica que o modelo de tevê ideal seria um misto do Bravo Brasil, da tevê a cabo, com a TV Cultura, de São Paulo. Não precisa ter uma programação exclusivamente educativa. A tevê alemã é assim e é uma droga. O Brasil não tem essa tradição. Mas acredito que, a partir do momento que os canais de tevê são concessão pública, elas têm a obrigação de melhorar a qualidade da programação, conclui.





