Uma salada cultural que é a cara de São Paulo
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terça-feira, 27 de setembro de 2005
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
São Paulo não tem exatamente a natureza que caracterizou, em versos, o Rio como a ''cidade maravilhosa'', mas tem atrativos suficientes para provar que, sim, é dela o posto de ''coração'' do Brasil. Não há tempo nem espaço para se pensar na caminhada à beira da praia, tampouco o jeito informal de se vestir ou o olhar descompromissado de quem caminha sem pressa pelas ruas da metrópole.
Sinônimo de uma vida áspera demais? Nem tanto. Um fim de semana em São Paulo pode revelar muita coisa, especialmente se o visitante está interessado em se aprofundar nas múltiplas facetas da expressão artística, ou simplesmente conhecê-las. Um ponto de partida é a Avenida Paulista, cartão postal da Paulicéia e, como tal, ponto de encontro de muitos de seus símbolos.
Se o interesse é por história nacional, mas sem abrir mão da tecnologia que desenha a contemporaneidade, a dica é o Instituto Itaú Cultural, onde podem ser feitas visitas monitoradas. Com modernos equipamentos áudio-visuais e um acervo que vai das artes plásticas à exposição de todo o sistema monetário brasileiro, em peças novas e raras, o Instituto tem agenda lotada o mês inteiro. Música, teatro, fotografia, literatura, cinética digital - o leque é vasto. A entrada, franca.
Parada obrigatória se faz quarteirões adiante, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o popular Masp. O trajeto pode ser feito a pé, oportunidade a mais para se conferir a rica miscelânea que forma a identidade do município também pelos sotaques, argumentos e, claro, criatividade dos vendedores de rua.
Uma vez no Masp, o próprio prédio já é atração à parte, com quatro únicos pilares sustentando a estrutura e proporcionando um vão que não perde de vista o restante da cidade condição para que o terreno fosse doado pela Prefeitura, na primeira metade do século passado. Aos domingos, o vão abre espaço à famosa feira de antiguidades que faz frente a outra, artesanal, que ocorre do outro lado da Paulista, no Parque Trianon.
O Museu é fruto de uma aventura de duas pessoas, auxiliadas pelo mecenas Edmundo Monteiro Assis Chateaubriand, fundador e proprietário dos Diários e Emissoras Associados, e o professor Pietro Maria Bardi, jornalista e crítico de arte na Itália, então recém chegado ao Brasil. No acervo, é possível apreciar desde obras das escolas clássicas italiana e espanhola nomes como Rafael, Botticceli, Rembrandt e Velazquéz , até as que compõem o chamado movimento impressionista, entre as quais as de Renoir, Manet, Monet, Cézanne e Degas. Dos pós-impressionistas, há ainda quadros de Van Gogh e de Toulouse-Lautrec. Dica: vá bem disposto e sem pressa; o museu fica aberto das 11 às 18 horas, de terça a domingo.
Continuando o passeio por dentro da região central, alguns cenários de degradação arquitetônica e humana logo perdem espaço para a monumentalidade de uma Estação da Luz quase que completamente restaurada. Com inspiração no Big Ben londrino, a construção é vizinha, ainda ali no Bairro da Luz, do Mosteiro que leva o nome da região. Localidade: Avenida Tiradentes, 676.
Fundado e construído por frei Antonio de Sant'Anna Galvão, em 1774, o Mosteiro da Luz figura hoje como o mais importante monumento arquitetônico colonial do século XVIII em São Paulo. O edifício abriga o recolhimento das Irmãs Concepcionistas, que, em pleno século 21, se dedicam à oração e ao trabalho em regime de clausura. Anexado ao Mosteiro, é imprescindível a visita às dependências do Museu de Arte Sacra, que detém um conjunto de cerca de 4 mil peças nacionais e estrangeiras. Das esculturas de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, à segunda maior exposição de lampadários do mundo, o estabelecimento é uma aula de história que começa no Brasil Colônia até os dias atuais.
À parte, o Museu de Arte Sacra ainda possui em seu acervo duas vertentes tipológicas: o Museu dos Presépios, com cerca de 190 peças de diferentes países e regiões do Brasil, e a Coleção de Numismática, composta por 9 mil peças que abrangem moedas do período colonial e medalhas pontifícias. Não saia sem conferir o Presépio Napolitano, segundo maior do mundo (o maior se encontra no Vaticano), com 1,5 mil peças 310 delas, de figuras humanas , construído no século 18, durante oito anos, por 12 artistas.
Caso ao final do trajeto o estômago lembre que precisa ser satisfeito, não é na cidade com a maior diversidade culinária da América Latina e uma das maiores do mundo que isso será problema. Conselho: se quiser gastar pouco e comer bem, vá ao imponente Mercado Municipal, tradicional espaço que ganhou um charmoso e moderno mezanino com a restauração concluída ano passado. Comidas italiana, chinesa, japonesa, árabe? Estão lá, com certeza. Mas tão difícil quanto a escolha do prato é encontrar alguma resistência ao famosíssimo pastel de bacalhau ou ao impressionante sanduíche de 400 gramas de mortadela. Mais paulistano que isso, só o sotaque do vendedor.
A jornalista viajou a São Paulo convite da Accor Hotels


