ReproduçãoCena de ‘‘O Mundo Perdido’’: menos ponderações científicas e mais, muito mais açãoSem absolutamente nada para provar a ninguém depois da cesta de Oscars colhida com ‘‘A Lista de Schindler’’, sexto colocado no ranking das 100 pessoas mais poderosas de Hollywood, diretor bem-sucedido, produtor (linha-dura) melhor ainda e exímio farejador do que o público realmente gosta, aos 50 anos Steven Spielberg já vai quase adquirindo status de instituição. Alguma coisa assim mais ou menos localizada entre um donnut’s , o Grand Canyon e um baile de formatura de high school . Agora amado por todos os americanos - faltava apenas a Academia -, Spielberg anda abusando da sorte extra-celulóide: cismou de construir um monumental centro de produção numa área pantanosa da California que uma irritada população quer ver apenas como habitat de cobras e lagartos. Neste momento há uma trégua entre ecologistas e Mr. Spielberg. Motivo: os primeiros estão muito ocupados para protestar, lotando as salas onde é exibido ‘‘O Mundo Perdido - Jurassic Park’’(veja a programação de cinema na página 4) e ajudando a transformar o filme em novo fenômeno de bilheteria - 190 milhões de dólares em três semanas, só nos Estados Unidos. E o segundo da mesma forma parece não ter tempo para responder às críticas, finalizando as filmagens de ‘‘Amistad’’ (veja texto nesta página) e ainda atendendo compromissos ligados ao lançamento de ‘‘The Lost World’’.
900 milhões de motivos De volta à direção depois de três anos, quando realizou ‘‘A Lista de Schindler’’, filme que deu a ele o amplo reconhecimento crítico e artístico já merecido (e negado) desde ‘‘A Cor Púrpura’’, Spielberg , ou ‘‘Dickie’’, como é familiarmente conhecido por sua equipe nos sets , retomou a saga dos dinossauros a partir de um roteiro-suíte de David Koepp baseado no best-seller de John Grisham.
A pergunta seria: por que ainda há sauros de várias espécies vivos numa ilha da Costa Rica, quando em ‘‘Jurassic Park’’ fomos informados de que os bichos não teriam condições de sobrevivência por muito mais tempo? A explicação para a sequela, além da desesperada e até compreensível histeria da Universal diante da agradável possibilidade de fazer uma bilheteria igual ou até superior à primeira parte - 900 milhões no mercado mundial, a maior da história - é que existe um segundo local na região, Ilha Sorna, por alguma razão desprezada no original. É nela que os bichos agora fazem a festa, soltos, e é para lá que seguem os vilões da história, a fim de capturar e explorar os dinossauros remanescentes.
Para tentar impedir essas previsíveis maldades, a luta fica por conta de Ian Malcolm (Jeff Goldblum), agora menos irônico e mais humanizado, tomando à unha a tarefa de proteger as raridades para que sejam estudadas e sirvam de alguma maneira para o bem da humanidade. Nesta tarefa ele é ajudado por uma paleontologista, por coincidência sua namorada.
Direto ao ponto Uma das maiores preocupações dos principais envolvidos com a realização de ‘‘O Mundo Perdido’’ foi a questão do blablablá. Embora as platéias de todos os cantos tenham materializado sua aprovação depositando na bilheteria o sagrado preço do ingresso, muitas pessoas manifestaram diretamente ao cineasta (e à própria Universal) uma inquietação. No caso de um ‘‘Jurassic 2’’, o pedido era para que a chamada parte introdutória fosse a mais rápida possível. Menos ponderações científicas e mais, muito mais ação. Personagens mais rasos e animais mais famintos e insaciáveis. Quando foi oficialmente anunciada a continuação, um garoto de oito anos de uma escola primária de San Francisco chegou a escrever a Spielberg: ‘‘Seja lá o que vocês fizerem, por favor, não façam uma longa parte no começo que nada tenha a ver com a ilha’’.
Esta, de fato, parece uma tendência cada vez mais acentuada nos filmes de ação de Hollywood. Eles vêm se tornando fliperamas desenfreados à medida em que efeitos especiais tomam o lugar de personagens. Podem ser divertidos até, mas é diversão sem alma, sem conflitos, sem enriquecimento. Para ficar apenas nos domínios da filmografia do próprio Spielberg, é conveniente tomar o exemplo de ‘‘Tubarão’’, realizado há 22 anos e até hoje imbatível como aventura de ação. E bastante funcional também enquanto filme de personagens agindo no limite de suas capacidades físicas e mentais.
Postos em confronto, ‘‘Jurassic Park’’ e ‘‘Jaws’’ revelam bem os rumos do cinema de ação nessas duas últimas décadas. Em ‘‘Tubarão’’ os efeitos criados eram toscos e primitivos, e na maioria das vezes tudo o que se tentava não era aproveitado. O animal mecânico, de tão doméstico e artesanal, ganhou um nome, Bruce.
Para compensar as deficiências técnicas, o dedo nervoso de Spielberg coçando a imaginação das platéias estateladas pelo suspense - ainda hoje o resultado é magnetizante. E três grandes atores em tempo de graça, literalmente encarnando personagens sólidos: Richard Dreyfuss, Roy Scheider e Robert Shaw. Como bem definiu o próprio diretor, ‘‘o que poderia ter sido um filmezinho japonês de horror em programa de matinê acabou se transformando num thriller hitchcokiano ’’.
Jurassic pós Schindler A ‘‘mensagem’’ da sequela parece ser diferente daquela original. ‘‘Jurassic’’ tinha a clássica moral do filme de horror: cientistas amalucados brincam perigosamente com o processo divino da criação da vida. Já em ‘‘O Mundo Perdido’’, os cientistas são pessoas ecologicamente corretas e os dinossauros espécies ameaçadas de extinção. Para o desenhista de produção Rick Carter, ‘‘aqui há intenções e problemas mais obscuros para tentar resolver. Eu acho que é ‘Jurassic Park’ pós ‘A Lista de Schindler’.
Spielberg não pretende ser um artista ao nível de um Scorsese ou um Coppola. Mas acho que ele agora não é mais o mesmo Spielberg. Este mundo está perdido, e as pessoas neste filme estão tentando muito duro proteger aquilo que elas acreditam, embora as forças contrárias sejam grandes e poderosas. Por sorte elas são
bem-sucedidas’’. Spielberg acrescenta: ‘‘O primeiro filme foi sobre o fracasso da tecnologia e a vitória da natureza. Este agora é muito mais sobre o fracasso das pessoas que não encontram limites para si mesmas, e o fracasso para proteger esses animais’’.
E a propósito de animais, algumas novidades. Agora são dois T-Rex, um casal ao custo estimado de 1 milhão de dólares cada. Eles foram criados na loja especializada de Stan Winston, que já havia confeccionado os bonecos para ‘‘Jurassic’’.
Mas não é só. Outras espécies de monstros pré-históricos têm desfile garantido: um adulto e um bebê stegossauro, um pachycephalosauro (também conhecido como cabeça de manteiga) e um parasaurolophus morto. Outras escolhas, como um super-raptor, chegaram a ser consideradas pela produção mas descartadas. Ao todo, a produção custou 75 milhões, só 20 a mais que ‘‘Jurassic Park’’.
Além de Jeff Goldblum, no elenco estão Juliana Moore, Pete Postlethwaite, Harvey Jason, Vince Vaughn, Vanessa Lee Chester e Richard Attenborough num pequena participação. Não estão mais Laura Dern, Sam Neil e as crianças.

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