Uma revista que fez história
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quinta-feira, 10 de dezembro de 1998
Ademir Fernandes Agência Estado 
Houve um tempo no Brasil em que não se falava em ler revistas. Falava-se em ler O Cruzeiro. Foi essa revista que iniciou no Brasil a fase das grandes reportagens, num estilo arrojado que lhe rendeu, entre outras proezas, tiragens recordes como a de 720 mil exemplares, numa época na qual o Brasil não tinha tantos habitantes como agora. Uma delas, sobre os índios xavantes, feita pela dupla Jean Manzon e David Nasser, teve repercussão mundial e foi reproduzida em 60 países.
A equipe de O Cruzeiro já sonhava com altos vôos antes mesmo de seu lançamento oficial, há 70 anos, no dia 10 de dezembro de 1928. Naquele dia, os cariocas viram uma estranha chuva de folhetos despejados por um pequeno avião que sobrevoou o centro do Rio, anunciando a novidade: a revista contemporânea dos arranha-céus, nascida de olhos voltados para o alto e para a frente.
Da tiragem inicial, de 50 mil exemplares, O Cruzeiro saltou rapidamente para os 720 mil. O ex-piloto francês Jean Manzon foi o primeiro a usar uma Rolley-Flex no Brasil, na revista dirigida por Assis Chateaubriand, Carlos Malheiros Dias, José Mariano Filho, Jorge Chateaubriand, Frederico Barata, Lincoln Néri da Fonseca e Milton Anaoni, entre outros. Eram tempos de outras novidades, além dos arranha-céus, entre as quais o correio aéreo e a radiotelefonia.
Logo no número de estréia O Cruzeiro demonstrava uma grande preocupação com o futuro, manifestada na reportagem intitulada Era das Forças Hidráulicas, uma Visão do Ano 2000. Na mesma edição, o professor e urbanista Alfredo Agache mostrava em desenhos como seria o Rio dos anos 50.
E foi exatamente nos anos 50 que a revista teve sua melhor fase, a ponto de, em 1958, desviar a rota do desfile dos campeões mundiais de futebol, para que eles passassem defronte à sua sede, atrasando a solenidade preparada pelo presidente Juscelino Kubtischek diante do Palácio do Catete.
Também foi da revista a idéia de criar o concurso para a escolha de Miss Brasil, lançado oficialmente em 1929. Um ano depois, a gaúcha Iolanda Pereira, de Pelotas, ganhava o título de Miss Universo. Com a eclosão da 2ª Guerra (de 39 a 45), as reportagens de O Cruzeiro passaram a ter repercussão internacional, publicando reportagens arrojadas de correspondentes das agências de outros países e apostando na dupla Manzon e Nasser no Brasil.
Somaram-se a eles nomes como os de Mário de Moraes, Ubiratã de Lemos, Millôr Fernandes, Péricles (criador do personagem O Amigo da Onça), José Cândido de Carvalho, Raquel de Queirós, Borjalo, Carlos Estevão e Alceu Penna, entre outros. Lemos e Morais juntaram-se aos pobres migrantes que embarcaram num caminhão no Nordeste e fizeram uma viagem até o Rio, para contar o drama dessa gente. A reportagem Os Paus-de-Arara, uma Tragédia Brasileira deu à revista seu primeiro Prêmio Esso.
Durante a guerra da Coréia, o repórter cearense Luciano Carneiro arriscou a própria vida ao saltar de pára-quedas no meio das tropas norte-coreanas. Foi ainda O Cruzeiro que causou muita polêmica nos meios políticos ao publicar a foto do deputado Barreto Pinto de cuecas, registrada por Manzon e que custou a cassação do parlamentar.
Depois de alguns anos de crise, causada, segundo alguns analistas, porque a revista não adaptou sua estrutura gráfica e administrativa à modernização do mercado, o título O Cruzeiro foi leiloado, no dia 5 de agosto de 1975, para o pagamento de dívidas. O texto do edital anunciando o leilão informava tratar-se de um título que, trabalhado com mentalidade empresarial moderna, voltará a ser uma das maiores e melhores revistas da América Latina.


