‘‘A função do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar, na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem, o impacto da obra de arte’’. Era assim que André Bazin, fundador dos ‘‘Cahiers du Cinema’’, se referia ao papel da crítica diante do filme enquanto obra de arte - fórmula que não se aplica à imensa maioria dos títulos que semanalmente desfilam pelas salas escuras. Os ‘‘Cahiers’’ sempre se caracterizaram por oferecer aos cinéfilos mais exigentes um enfoque nada convencional. Considerando o cinema matéria-prima para reflexão, a revista investiu sempre no filme-arte como objeto de reflexão dos problemas do homem contemporâneo.
Amparado por forte carga ideológica, o veículo respaldou idéias, avalizou teorias, patrocinou debates, apadrinhou rebeldias. Sempre num registro austero, conciliando forma e fundo.
Desde 1998 os Cahiers pertencem quase integralmente ao jornal ‘‘Le Monde’’. Segundo a direção do jornal, desde outubro do ano passado a revista está exibindo uma nova fórmula, dirigida por uma dupla de jovens em substituição ao veterano Serge Toubiana. ‘‘Renovar o conteúdo e a forma sem trair o papel capital que ela desempenhou na história da cinefilia, e mais particularmente no nascimento da nouvelle vague’’. Pelo que se observa em números recentes, embora não adotando o glamour de publicações típicas da indústria cultural-consumista (as francesas ‘‘Premiere’’, ‘‘Studio’’, ‘‘Le Nouveau Cinema’’, a brasileira ‘‘Set’’), os ‘‘Cahiers’’ passaram por um processo de desintelectualização ainda não idiotizada - vale dizer, editorialmente ainda preserva algumas ótimas atrações. Um exemplo é o número de janeiro, com um precioso dossiê sobre o mestre japonês Mikio Naruse e uma seção de críticas com nível preservado e bem próximo ao espírito Bazin.
Por outro lado, as modificações introduzidas já trouxeram dividendos, segundo o ‘‘Le Monde’’. A receita com publicidade aumentou 60 por cento, de 99 a 2000. O site na internet (www.cahiersducinema..com) recebe cerca de 1500 conexões/dia e mais de 500 mil páginas lidas por mês. O déficit anterior, não revelado, deverá cair para 1,8 milhões de francos em 2001. As assinaturas cresceram de 12 para 19 mil (4 mil para o exterior), e a venda em bancas de 10 para 12 mil.
Entre as muitas festividades programadas para o celebrar o aniversário, o Festival de Cannes preparou uma surpresa para o dia 17 de maio. Também os festivais de Nova York e Veneza vão prestar homenagem à revista. Mas é o próprio cinema que está oferecendo o melhor presente. Começou em Paris dia 28 de março e termina dia 16 de maior o ciclo ‘‘50 Anos, 50 Filmes’’, com títulos eleitos aos longo dos anos pelo próprio corpo de redatores da revista. Quem também ganhou homenagem especial foi o cineasta Roberto Rosselini, ídolo dos primeiros críticos (Truffaut, Chabrol, Godard) dos primeiros anos da publicação.(CELJ)

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