Uma releitura sensível da loucura
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terça-feira, 01 de maio de 2007
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Tendo a temática da loucura como fio condutor o espetáculo ''Bricolage'' abre nova temporada a partir de amanhã na Casa de Cultura de Londrina. Depois da estréia em março de 2005, a montagem, agora com patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), ganha nova visibilidade integrando também a Rede da Alegria.
Com direção de Paulo Braz, Bricolage traz no elenco o ator Alessandro Antonio e André Akira - amador improvisado em ator que através dessa experiência pôde mostrar parte do seu universo paralelo de uma forma sensível e lúdica.
Akira é usuário do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) onde, em 2001, Alessandro Antonio iniciou um estágio voluntário realizando atividades teatrais com grupo de usuários da unidade de saúde. No ano seguinte, deu continuidade ao trabalho, mas com apoio do Promic.
O envolvimento de Antonio com a temática acabou resultando em tema da sua monografia de conclusão do curso de Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Posteriormente, acabou por investigar o assunto em tese de mestrado pela Unicamp, onde a concepção e desenvolvimento da peça Bricolage ganhou formas de trabalho acadêmico que defendeu em março deste ano.
Bricolage - palavra de lúdica sonoridade originária do francês que significa a criação de alguma coisa através de um trabalho amador, com técnicas improvisadas e adaptadas aos materiais e às circunstâncias - presta uma homenagem à vida e obra de Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).
O artista viveu praticamente 50 anos numa instituição psiquiátrica na cidade do Rio de Janeiro e, nas circunstâncias mais adversas, criou, a partir de estilhaços de sua história de vida e de restos da cultura material de nossa sociedade, muitos objetos como vitrines, estandartes, bordados, indumentárias e miniaturas, entre outros, para apresentar a Deus no dia do Juízo Final e, também fundiu um ''novo papel'' para si mesmo.
Tudo o que fez foi para lutar a favor da vida e contra a morte e, de forma surpreendente, a obra de Bispo do Rosário questiona as fronteiras entre o normal e o patológico, entre a arte e a vida, entre a criação plástica e a performance.
Tendo Bispo do Rosário como inspiração, Bricolage questiona o estatuto de ''doente mental'' na nossa sociedade e se apresenta como um trabalho da afirmação das diferenças. ''Quando estreamos, muitas pessoas ficaram questionando se o Akira era ou não ator, mas acho essa polêmica desnecessária. O mais importante não é a questão estética. Ele não é um ator, mas isso não o impede de realizar um trabalho teatral que mostre a sua realidade, a sua verdade'', destacou Alessandro Antonio.
Para ele, o espetáculo volta-se mais para uma abordagem contemporânea da ''arte bruta'' e do conceito do non sense - mais utilizado nas artes plásticas. ''Um dado muito interessante é que em 2006 fizemos parte da mostra nacional do Festival Internacional de São José do Rio Preto e para nós isso foi um grande reconhecimento, porque o nosso trabalho tem uma vertente mais social do que estética'', afirmou, lembrando também que em 2005 eles participaram do Festival Internacional de Londrina (Filo).
Segundo Alessandro Antonio, Akira ainda não está inserido socialmente, mas o seu envolvimento com o teatro já provocou alguns benefícios, mesmo que aparentemente sutis. ''Para desenvolvermos a peça, ele teve que se submeter a uma certa disciplina de ensaios, mas tudo dentro de um espaço que acolhia com respeito e dignidade a sua maneira de se organizar'', acrescentou.
Serviço:
- Nova temporada do espetáculo ''Bricolage'', com direção de Paulo Braz
Quando - De quinta-feira a sábado, a partir das 21 horas, e aos domingos às 20h30; as apresentações acontecem também de 10 a 13 e de 17 a 20 de maio
Onde - Casa de Cultura da UEL (R. Mato Grosso, 537)
Quanto - Ingressos a R$ 5,00 e R$ 2,50 (estudantes e aposentados)


