''Julie e Julia'' está longe de figurar entre os melhores filmes de 2009. Mas se houvesse uma lista dos mais simpáticos, certamente ficaria entre os primeiros colocados. Afinal, sua receita traz uma combinação de ingredientes novos e consagrados que por si só cativam o público - especialmente o feminino.
A começar pela assinatura da diretora e roteirista Norah Ephron, uma especialista em comédias românticas. São dela clássicos recentes do gênero como ''Sintonia de Amor'' e ''Mensagem para Você''. Interessada em gastronomia, a cineasta encontrou no livro da blogueira Julie Powell a grande motivação para voltar a filmar. Seu último longa, a adaptação para o cinema de ''A Feiticeira'', é de 2005 (e não foi bem recebido).
Escritora frustrada, Powell trabalhava como funcionária pública no início da década passada quando se impôs um desafio: testar, no prazo de um ano, as 524 receitas do famoso livro ''Dominando a Arte da Cozinha Francesa''. Lançada em 1961, a obra é o resultado de uma longa jornada da cozinheira e celebridade da tevê Julia Child, uma americana que aprendeu tudo sobre culinária na Paris dos anos 50.
Como esta é a era do ''ver e ser visto'', o projeto de Powell incluiu também um blog, em que ela expunha todos os passos de sua saga, misturados com dilemas pessoais. Os relatos logo viraram um hit na web, o que a obrigou a levar até o fim a tarefa - mesmo contra vontade do marido, que perde a paciência diante de tanta dedicação à cozinha.
Felizmente, o filme de Nora Ephron não se limita às dificuldades da blogueira (interpretada por Amy Adams, a princesa de ''Encantada''). Em uma decisão acertada, a cineasta intercala sua história com a de Julia Child, explorando períodos e cenários diferentes. E, ao contrário do que se pode pensar, as partes dedicadas a Child, que moveu mundos e fundos para publicar seu livro, ganham muito mais destaque.
Destaque justificado pelo excelente trabalho de Meryl Streep, impecável no papel da dona de casa entediada que descobre sua vocação na lendária escola francesa de culinária Le Cordon Bleu. Amparada por uma caprichada reconstituição histórica e pelo coadjuvante de luxo Stanley Tucci, a atriz não só convence como se credencia para sua décima sexta indicação ao Oscar. Há duas semanas, faturou o sétimo Globo de Ouro da carreira.
Mas ''Julie e Julia'' não tem apenas Streep e uma visão romanceada da Paris antiga. Seu sucesso está também em captar e traduzir assuntos atuais como a frustração profissional, a fama rápida na internet, a relação quase fetichista com a comida e um certo resgate de valores femininos tradicionais. Uma receita, portanto, infalível.

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