Arquivo FolhaDalva de Oliveira: cantora afeita ao dramaEm 5 de maio próximo, a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972) completaria 80 anos. E é nessa época que a gravadora EMI promete lançar uma luxuosa caixa com quatro CDs que rememoram sua trajetória musical. Mas a caixa já existe. Uma tiragem de 3.000 exemplares de ‘‘Dalva - A Rainha da Voz’’ foi produzida no final do ano passado, especialmente para ser distribuída como brinde de Natal aos clientes da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). ‘‘A iniciativa faz parte de um projeto de recuperação do acervo da MPB que a CSN iniciou em 1995, distribuindo aos clientes o CD ‘Cantoria’, de Herminio Bello de Carvalho’’, afirmou Paulo Martins, da assessoria de comunicação social da empresa.
O ‘‘Projeto Dalva’’ impulsiona um modelo pouco comum no Brasil, de parceria entre setores diferentes da iniciativa privada. Segundo Martins, a CSN viabilizou a edição da caixa em troca da exclusividade de distribuição entre dezembro passado e maio próximo. ‘‘A CSN pagou o custo da caixa, com masterização das faixas no estúdio de Abbey Road, em Londres (Reino Unido), e garantiu a produção dessa primeira fornada’’, afirmou.
A parceria acarretou uma ampliação no projeto original. Segundo Martins, a EMI planejava fechar o foco da coletânea nos trabalhos pós-1960 de Dalva. ‘‘Assim não nos interessava, queríamos uma compilação que abrangesse toda a carreira dela’’, disse Martins.
‘‘A Rainha da Voz’’ faz um apanhado exaustivo da MPB sob o olhar da paulista filha de portuguesa e mulato Dalva de Oliveira, entre 1938 e 1969. Sua trajetória, que a música nem sempre basta para ilustrar, foi atribulada: passou por orfanatos, foi costureira e faxineira, cantou em circos, integrou o Trio de Ouro, interpretou (e se casou com) Herivelto Martins, rompeu com o marido - um escândalo para os anos 40 -, lançou-se em carreira solo e se estabeleceu versão feminina do ‘‘rei da voz’’, Francisco Alves.
Vida atribuladaDalva reinou absoluta no cenário repleto de cantoras dos anos 50, cravando clássicos um atrás do outro - ‘‘Que Será?’’, ‘‘Tudo Acabado’’, ‘‘Calúnia’’, ‘‘Estrela do Mar’’, ‘‘Kalu’’. Já sentada no trono, virava assunto das fofocas devido a excessos alcoólicos, romances com rapazes jovens e um acidente de carro que quase a matou em 1965. Entre este e a morte por câncer no baço, em 1972, teve tempo de gravar os ‘‘modernos’’ Chico Buarque e Roberto Carlos, manifestar simpatia pela discípula Maria Bethânia e emplacar sucesso em época de total reformulação musical com ‘‘Bandeira Branca’’ (1969).
As 69 canções não se furtam a expor uma cantora afeita ao drama, à pronúncia exagerada de erres, à voz desabusadamente aguda, às canções cafonas de dor e amor. Deslizar pelos quatro CDs da caixa é, afinal, redescobrir facetas semi-esquecidas da vida e da arte brasileira anterior à era das revoluções da bossa e do tropicalismo.
Aí se pode partir dos duetos ufânicos (‘‘Brasil!’’) e românticos (‘‘Dois Corações’’) com Francisco Alves para (re)descobrir que ‘‘Babalu’’, o bolero-síntese de Angela Maria, foi interpretada muito antes por Dalva - de quem Angela roubou o ‘‘laririri’’.
Por fim, pode-se ainda revisar o flerte de Dalva com o mais popularesco em tangos e boleros (‘‘...E a Vida Continua’’), coincidente com o declínio da velha guarda pelas mãos de antes aprendizes como Tom. Isso tudo é apenas história.

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