Uma rainha remasterizada
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terça-feira, 11 de fevereiro de 1997
Pedro Alexandre Sanches Agência Folha 
Arquivo FolhaDalva de Oliveira: cantora afeita ao dramaEm 5 de maio próximo, a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972) completaria 80 anos. E é nessa época que a gravadora EMI promete lançar uma luxuosa caixa com quatro CDs que rememoram sua trajetória musical. Mas a caixa já existe. Uma tiragem de 3.000 exemplares de Dalva - A Rainha da Voz foi produzida no final do ano passado, especialmente para ser distribuída como brinde de Natal aos clientes da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). A iniciativa faz parte de um projeto de recuperação do acervo da MPB que a CSN iniciou em 1995, distribuindo aos clientes o CD Cantoria, de Herminio Bello de Carvalho, afirmou Paulo Martins, da assessoria de comunicação social da empresa.
O Projeto Dalva impulsiona um modelo pouco comum no Brasil, de parceria entre setores diferentes da iniciativa privada. Segundo Martins, a CSN viabilizou a edição da caixa em troca da exclusividade de distribuição entre dezembro passado e maio próximo. A CSN pagou o custo da caixa, com masterização das faixas no estúdio de Abbey Road, em Londres (Reino Unido), e garantiu a produção dessa primeira fornada, afirmou.
A parceria acarretou uma ampliação no projeto original. Segundo Martins, a EMI planejava fechar o foco da coletânea nos trabalhos pós-1960 de Dalva. Assim não nos interessava, queríamos uma compilação que abrangesse toda a carreira dela, disse Martins.
A Rainha da Voz faz um apanhado exaustivo da MPB sob o olhar da paulista filha de portuguesa e mulato Dalva de Oliveira, entre 1938 e 1969. Sua trajetória, que a música nem sempre basta para ilustrar, foi atribulada: passou por orfanatos, foi costureira e faxineira, cantou em circos, integrou o Trio de Ouro, interpretou (e se casou com) Herivelto Martins, rompeu com o marido - um escândalo para os anos 40 -, lançou-se em carreira solo e se estabeleceu versão feminina do rei da voz, Francisco Alves.
Vida atribuladaDalva reinou absoluta no cenário repleto de cantoras dos anos 50, cravando clássicos um atrás do outro - Que Será?, Tudo Acabado, Calúnia, Estrela do Mar, Kalu. Já sentada no trono, virava assunto das fofocas devido a excessos alcoólicos, romances com rapazes jovens e um acidente de carro que quase a matou em 1965. Entre este e a morte por câncer no baço, em 1972, teve tempo de gravar os modernos Chico Buarque e Roberto Carlos, manifestar simpatia pela discípula Maria Bethânia e emplacar sucesso em época de total reformulação musical com Bandeira Branca (1969).
As 69 canções não se furtam a expor uma cantora afeita ao drama, à pronúncia exagerada de erres, à voz desabusadamente aguda, às canções cafonas de dor e amor. Deslizar pelos quatro CDs da caixa é, afinal, redescobrir facetas semi-esquecidas da vida e da arte brasileira anterior à era das revoluções da bossa e do tropicalismo.
Aí se pode partir dos duetos ufânicos (Brasil!) e românticos (Dois Corações) com Francisco Alves para (re)descobrir que Babalu, o bolero-síntese de Angela Maria, foi interpretada muito antes por Dalva - de quem Angela roubou o laririri.
Por fim, pode-se ainda revisar o flerte de Dalva com o mais popularesco em tangos e boleros (...E a Vida Continua), coincidente com o declínio da velha guarda pelas mãos de antes aprendizes como Tom. Isso tudo é apenas história.


