Uma química perfeita
Centelha, fagulha, combustão, curto-circuito, chispa, alquimia, química. Não se sabe muito bem de que se trata, mas que o fenômeno existe no cinema não há a menor dúvida. O mais comum é chamá-lo de química. Ocorre entre dois atores, estabelecendo uma espécie de forte e invisível ligação, algum tipo de chave secreta que, uma vez ligada, cria uma comunicação que transcende os diálogos. Em termos de comédia, os alquimistas hollywoodianos de outros tempos tinham o faro apurado para detectar quem ia bem com quem, ao contrário dos ''cientistas'' de hoje, incapazes daquele feeling de outrora - o box office, por si só, não aciona o mecanismo, e o que se vê agora com irritante frequência é o desencontro e a apatia.
Neste território romântico, vale lembrar alguns pares que fizeram história, não só por suas virtudes individuais como comediantes mas também pela ''eletricidade'' comunicativa que se percebia tão logo surgiam em cena. Entre outros, Cary Grant e Irene Dunne, William Powell e Mirna Loy, Clark Gable e Carole Lombard, Spencer Tracy e Katherine Hepburn, Jack Lemmon e Shirley MacLaine, Rock Hudson e Doris Day, Marcello Mastroianni e Sophia Loren, Michael Douglas e Kathleen Turner. Para o gosto heterogêneo dos cinéfilos há sempre mais, claro, e em outros gêneros - imperdoável, por exemplo, não citar Humphrey Bogart e Lauren Bacall, da tela para a eternidade mitológica.
No caso de Catherine Zeta-Jones e George Clooney, a entrevista coletiva durante o recente Festival de Veneza deixou transparente que os irmãos Coen, responsáveis por ''O Amor Custa Caro'' (leia texto nesta página) levaram em alta conta o tal componente da química e deram de cara com o segredo. Embora nunca tivessem atuado juntos, a espontânea cumplicidade dos dois diante dos jornalistas e o clima, digamos, de ajuste e conivência, foram razões suficientes para justificar o acerto do ''casting''. Consta que os dois atores mal se conheciam, mas durante as filmagens o clima nos sets foi incandescente. Muito, com certeza, por conta de Clooney, que já é mais ou menos veterano nesta espécie terrestre de contato imediato de terceiro grau - Jennifer Lopez policial só se deu bem em ''Irresistível Paixão'' depois de passar um bom tempo eroticamente espremida com Clooney ladrão num porta-malas. É só lembrar de Jennifer com Ben Affleck para sentir a diferença.
Esta imantação também funciona além das fronteiras dos pares românticos, embora para estes o requisito seja fundamental. Por que não, entre homens? Danny Glover e Mel Gibson são impagáveis nas ''Máquinas Mortíferas''. Paul Newman e Robert Redford idem, em ''Butch Cassidy'' e ''Golpe de Mestre''. E o que dizer de Dustin Hoffman e Jon Voight em ''Perdidos na Noite''? E entre adultos e crianças, abstraído o sempre perigoso fator chantagem sentimental, o milagre também acontece. Para recordar, Philippe Noiret e Salvatore ''Toto'' Cascio em ''Cinema Paradiso''.(C.E.L.J.)





