UMA QUESTÃO DE PLANEJAMENTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de outubro de 2001
Roberta Brasil<br> TV Press 
Aos 35 anos de carreira, Marco Nanini já não idealiza os personagens que gostaria de interpretar. Mas aprendeu a planejar muito bem a sua agenda. É o jeito para conciliar as gravações de ''A Grande Família'', na Globo, com os diversos trabalhos no cinema para os quais é chamado. Só este ano, Nanini filmou ''Tempestade Cerebral'', de Hugo Carvana, esteve em cartaz com ''Copacabana'', de Carla Camurati, e está em ''O Xangô de Baker Street'', de Miguel Faria Jr., que acaba de estrear. Como se não bastasse, ainda planeja dividir os palcos com Marieta Severo - ainda estão escolhendo a peça. ''É cansativo, mas prazeroso, porque são trabalhos que valem a pena. Mas o ator precisa ter disciplina e uma escala que permita recuperar um pouco a energia'', ensina.
Uma boa dose dessa energia tem sido dedicada ao patriarca Lineu, de ''A Grande Família''. O personagem - que era de Jorge Dória na primeira versão da série, exibida nos anos 70 - cativou Nanini pela dificuldade inicial que teve para ''encontrá-lo''. Na busca por compôr seu próprio Lineu, o ator estudou os roteiros originais de Oduvaldo Viana Filho, mas assistiu apenas a um episódio da época. ''Não me preocupei em ser igual ou diferente do Jorge Dória. A proposta era formar uma nova família. Mais sintonizada com o nosso tempo'', explica.
Qual é a sua estratégia para conciliar trabalhos em cinema, teatro e televisão?
Eu me programo com antecedência e, em função disso, as pessoas também me procuram com antecedência. Minha agenda é feita com um ano ou, no mínimo, seis meses de frente. Nem sempre é fácil negociar folgas na tevê, mas a gente sempre tenta. Felizmente, eu tenho conseguido alguns milagres. No caso de um filme, a maior dificuldade não é só encontrar espaço na agenda, mas que esse espaço coincida com o de todos os outros atores. Agora, além de tudo, eu aprendi a me preservar para aguentar o tranco. Tenho uma boa alimentação e também reservo um tempo para mim. Senão fica tudo maçante demais e a gente perde o prazer.
Você filmou três longas em pouco mais de um ano. O que o motivou a investir nesses projetos, quase simultaneamente?
O que motiva é sempre o personagem e o que ele tem a oferecer. Nesse caso, tanto o Alberto, de ''Copacabana'', quanto o delegado Mello Pimenta, de ''Xangô'', ou o Apolônio, de ''Tempestade Cerebral'', eram irrecusáveis. Mas também apostei que estava em boas mãos nos três filmes. Quero participar dessa fase criativa que o cinema nacional está vivendo, com o surgimento de novos talentos. Acho que é uma resposta à lacuna deixada pelo governo Collor, dez anos atrás.
Aos 35 anos de carreira, tem algum personagem em particular que você ainda queira fazer?
Nunca tive vontade de fazer este ou aquele personagem. Eu gosto muito de ver o que pinta. Se o ator fica arquitetando muito, perde a disposição para as boas oportunidades que aparecem. Um bom exemplo foi ''Andando nas Nuvens''. Sempre achei cansativo fazer novela, mas me diverti muito com essa porque me encantei com o personagem.
O Lineu, de ''A Grande Família'', é um tipo comum, encontrável nos subúrbios. Isso o tornou mais fácil de fazer?
Não foi nada fácil acertar o tom do Lineu. E o desafio era justamente por ele ser tão comum e tão complexo. O Lineu precisava ter humor, sem perder a credibilidade. Tinha de ser um pai de família centrado, careta, mas ao mesmo tempo ter uma certa loucura, porque senão ficaria careta demais. Precisei fazer muita leitura de texto e conversar bastante com os autores e a direção para encontrar essa gama de sensações.
A princípio, ''A Grande Família'' está na programação da Globo no próximo ano. Você pretende continuar, ou pensa em aceitar convites para fazer novelas, por exemplo?
Realmente, tenho recebido alguns convites para voltar à novela, mas nada oficial. Prefiro esperar, até porque gosto muito de fazer ''A Grande Família'' e tenho disposição de continuar no ano que vem. Por enquanto, só está certo que vamos gravar três episódios além do previsto, para a Globo exibir nas férias. Não tenho aversão à novela nem um desejo enorme de fazer. Mas estou contente de viver o Lineu este ano.


