Um dos blockbuster em cartaz em todo o Brasil – ‘‘Pearl Harbor’’ – custou U$ 135 milhões, tem 2 horas e 55 minutos e traz uma fórmula conhecida para atrair multidões: um triângulo amoroso em meio a uma guerra. Mas a ambiciosa obra cinematográfica, estrelado por Ben Affleck, atrai também os olhares dos aficcionados por erros em filmes (algumas mancadas homéricas). Em ‘‘Pearl Harbor’’, de Michael Bay, já foram contabilizados 55 defeitinhos.
A campanha de marketing monstruosa nem mencionou, é claro, os defeitos. Numa das cenas em que Rafe MacCawley (Ben Affleck) está partindo para Londres e diz adeus a Danny Walker (Josh Hartnett), ele está numa estação de trem. Aparentemente, ele está pegando um trem para atravessar o oceano Atlântico (!). Em outro momento, Rafe está voando e seu avião é atingido. Quando o avião vai para a água é dia. Momentos depois, quando Rafe está nadando fora do avião já é noite. Vale citar o capitão falando num telefone em que o aparelho não está conectado a nada.
Nos Estados Unidos, há especialistas de toda espécie e uma proliferação de livros e web sites dedicados aos enganos em produções famosas. O maior dos sites é o movie-mistakes.com, editado pelo estudante Jon Sandys de apenas 22 anos. A grande maioria dos erros é de continuidade, ou seja, alguma peça do cenário ou do figurino aparece de outra maneira ou simplesmente não existe em takes consecutivos. Dentre os inúmeros filmes analisados, Sandys também inclui os lapsos de inconsistência histórica, como aconteceu em ‘‘Erin Brockovich’’. Nesse filme, a personagem de Julia Roberts aparece na rua na frente do outdoor de um web site. Mas a trama foi ambientada nos anos 80, quando a internet ainda não existia comercialmente.
Este ano, curiosamente, um grande número de trapalhadas foi encontrada nos filmes que brilharam no Oscar, com ‘‘Gladiador’’, que segundo apurou o olho vivo Jon Sandys foram computados 98 discrepâncias. O primeiro filme, disparado, é ‘‘Titanic’’, com 123 erros, seguido por ‘‘The Matrix’’, com 121.
Apontar erros em filmes virou mania nos últimos anos, graças, em parte, à proliferação do vídeo e do DVD. Na internet, as listas de erros se reproduzem cada vez mais. Em geral, os web sites são construídos com a ajuda de leitores e colaboradores externos, que se sentem valorizados quando encontram um detalhe despercebido pela maioria. Em alguns casos, é possível perceber que o diretor deu-se ao trabalho de esconder um detalhe, mas esqueceu-se de outro. Em uma das cenas finais de ‘‘Quase Famosos’’, Kate Hudson olha para fora do avião e vê um outro jato, muito mais moderno, que não poderia existir em 1969. O avião foi pintado com cores típicas da época, mas esqueceram de disfarçá-lo digitalmente.
‘‘Gladiador’’ trouxe uma sequência de gafes dos últimos tempos: escapamentos de gás em uma carruagem, a linha de um jato riscando o céu e traços arquitetônicos que só seriam vistos séculos mais tarde. Mesmo com a tecnologia cinematográfica evoluindo, os erros de continuidade e de informação histórica parecem estar cada vez mais presentes. Alguns erros de continuidade das cenas até poderiam ser resolvidos na edição. Há problemas de pesquisa de direção de arte. Outros enganos foram causados justamente pela edição. Pelo volume de filmes produzidos anualmente pela indústria cinematográfica americana, a quantidade de erros acaba sendo diretamente proporcional ao material produzido. Alguns detalhes passariam despercebidos se as produções de Hollywood não tivessem orçamentos tão grandes e vários continuistas.

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