‘‘Carmina Burana - Canções de Beuern’’ possui uma longa história que percorre tanto os monásticos corredores de abadias como mesas de tabernas repletas de bêbados. Suas raízes estão cravadas nos subterrâneos literários dos mosteiros da Idade Média. Os poemas/canções buranas fazem parte de uma vasta produção ‘‘underground’’ do cristianismo que permaneceu marginalizada nos porões das bibliotecas católicas.
Ao compor, em 1936, a cantata profana ‘‘Carmina Burana’’, o compositor alemão Carl Orff (1895-1984) trouxe à luz do dia poemas que permaneciam na mesa de um pequeno grupo de discretos pesquisadores. Na Idade Média, as únicas escolas existentes eram mantidas pela Igreja com o objetivo de formar sacerdotes e funcionários para o serviço religioso. O latim era a língua mestra e unia toda a Europa.
A criação de hinos litúrgicos fazia parte do ofício dos clérigos. Alguns deles sucumbiam aos prazeres da carne e, na calada da noite, utilizavam seus conhecimentos eruditos para escrever poemas licenciosos e satíricos. Estes poemas/canções eram criados por estudantes que vagavam de um mosteiro a outro e por clérigos desempregados.
Eles peregrinavam de taberna em taberna, bebendo, jogando e seduzindo moças e rapazes. Compunham canções exaltando a beleza do amor e a malícia do sexo, hinos em louvor ao vinho, bem como canções com críticas ao sistema papal e ao clero como um todo.
Os estudantes utilizavam seus conhecimentos para escrever poemas e canções para qualquer sujeito que pagasse uma garrafa de vinho. Várias dessas obras profanas foram registradas em manuscritos medievais que ficaram escondidos nos ‘‘infernos’’ das abadias.
‘‘Carmina Burana’’ é composto de alguns desses poemas/canções encontrados na biblioteca da abadia beneditina de Benediktbeuern situada na Baviera (região da atual Bavária). Os manuscritos foram descobertos em 1803, quando o acervo da abadia foi transferido para a Biblioteca do Estado de Munique. Parte dos manuscritos publicados em 1887 por Schmeller, passou a ser chamado de ‘‘Canções de Beuern’’, em latim ‘‘Carmina Burana’’.
Seus poemas/canções esparsos compõem uma coletânea sem nenhum enredo. Entre seus fragmentos, podem ser encontrado versos amorosos curtos e versos longos enaltecendo os poderes inebriantes do vinho. A maior das canções dos bêbados medievais está gravada nos manuscritos de ‘‘Carmina Burana’’. ‘‘In Taberna’’ é uma sucessão de brindes, goles e doses. Algumas canções amorosas do cancioneiro burano avançam pelo humor sexual. Em ‘‘Moça alegre, eu vivia’’ (Ich was ein chint), o autor narra o defloramento de uma jovem enganada: ‘‘Ele agarrou meu alvo corpo - eu me espantei - e falou ‘Eu te faço minha mulher. Como é suave tua boca! / Jogou no chão minha camisa, me deixou despida, assaltou meu castelo, a espada em riste. / Tomou seu arco e sua aljava - como ele sabia caçar bem - Ele me enganou, termina aqui o jogo! Ai.’’

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