Uma praia virada para a lua
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de julho de 1997
Jacques da Costa Carvalho Agência Estado 
Nova York, que nada. A Broadway está mais perto do que muitos imaginam. Este é o nome do corredor de animação da Praia da Pipa, a 85 km de Natal. Com bares, pousadas e restaurantes, essa rua de paralelepípedos é o epicentro da agitação que toma conta da madrugada nesse pedaço de litoral potiguar, um dos mais bonitos do País. Nas noites de sexta-feira e nos fins de semana, então, o local fica intransitável. Embora tenha pouco mais de 1,5 mil moradores, o vilarejo chega a receber nesses dias - e nos feriados - quase o dobro de sua população. Boêmia por natureza, nem parece uma reserva ecológica. É um bochincho só, gente para lá e para cá, até o amanhecer.
Alçada ao circuito badalado, a praia - onde, apesar do nome, ninguém empina papagaio - é uma vila de pescadores que ficou muito tempo escondida entre coqueiros, falésias, dunas e Mata Atlântica. De cinco anos para cá, a Pipa vem atraindo um número sem fim de estrangeiros e paulistas que se apaixonam pelo lugar. Eles, muitas vezes, acabam se mudando, indo fazer companhia aos nativos, aos golfinhos e às tartarugas.
A palavra pipa, explicam os moradores, vem de barril, forma de uma pedra que é vista por quem está no mar. O que mais chama a atenção de quem visita o local, porém, são as cores das falésias, que mudam de tonalidade de acordo com a luz.
Magia do entardecer E é a luminosidade, justamente, que diferencia Pipa de outros esconderijos bucólicos à beira-mar do Nordeste, todos pródigos em sol, coqueiros, mar transparente, etc., etc. Embora seja uma praia, onde se espera que a vida seja regulada pelo sol, é a lua que determina o ritmo local - além das marés. Pipa, decididamente, nasceu virada para a lua.
Com quase 4 km de areia fina e muitas rochas em sua orla, as opções de banho são inúmeras. Seja qual for a escolha, para todas elas é necessário descer ladeiras ou trilhas para chegar ao mar. Mas não espere encontrar gente caminhando, nadando ou se bronzeando antes do meio-dia na Praia Central (onde as nativas vendem uma cocada que é glicose pura, ótima para despertar), na do Amor, na Enseada dos Golfinhos ou na do Madeiro. Tirando os turistas que vêm passar o dia, ninguém levanta cedo. Só à tarde é que o pessoal começa a pensar em acordar, diz José Alberto Freire, um professor de Natal que frequenta a Pipa há décadas.
Afora algumas lojas e os restaurantes, são raros os lugares abertos durante o dia. Mas basta o sol começar a baixar que o movimento aparece. À noite, ninguém fica em casa ou dentro das pousadas. E não é por causa do calor que faz o ano inteiro. A magia do entardecer atrai todo mundo para a Broadway e para a beira-mar. Além dos banhos intermináveis de fim de tarde, o tempo é usado para jogar conversa fora, acompanhar a chegada dos pescadores na praia e bater perna de bar em bar. Esta última é, depois de umas horas de sacolejo na rede, a opção preferencial dos que estão - ou moram - na cidade.
Sem café O coração da Broadway nordestina pulsa mais forte no Jamaiquinho, Rua Principal esquina com a Quinta Avenida. O bar, minúsculo, é um dos points mais agitados da Pipa e tem a cara da proprietária, Soraia Sampaio. Ela, dona de uma animação inversamente proporcional ao seu tamanho, permanece sozinha atrás do balcão, de onde comanda os agitos do alto de seu 1,56 m. Em um espaço fechado com apenas seis bancos altos, ela consegue manter 30 pessoas em pé. Do lado de fora do bar, algumas mesas espalhadas em uma galeria acolhem o resto da clientela, que fica por lá até as três ou quatro da madrugada, quando sai para dançar em uma das boates da cidade, Calango e Tortugas.
Além do Jamaiquinho, há outros bares na Broadway, além das barracas na praia. Caso queira ir além de um aperitivo, saiba que a culinária também tem boa cotação. Entre os quase 25 restaurantes, ninguém vai se fartar de comer peixe, frutos do mar e pratos regionais. Por conta dos estrangeiros que chegaram ao vilarejo, é possível fazer um tour gastronômico internacional.
Aos viciados em café, um aviso: nem sempre a bebida é encontrada nos restaurantes da Pipa. Em compensação, após a sobremesa nada melhor do que a visão de uma lua que não está no mapa.


