Uma poesia sobre a poesia do cinema
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de novembro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br>De Londrina 
A metalinguagem é um recurso raro, mas geralmente eficiente. No universo da sétima arte, temos exemplos de obras que mantiveram a fantasia que ronda as filmagens. Fitas como ''A Noite Americana'', de François Truffaut; ''O Desprezo'', de Jean-Luc Godard; ''Crepúsculo dos Deuses'', de Billy Wilder; e ''Assim Estava Escrito'', de Vincente Minelli, mostram o meio cinematográfico em sua essência. Um empreendimento que oscila entre a paixão e o lucro, o mito e o estrelismo, a arte e a indústria. Entretanto, há uma obra que demonstrou com tons poéticos a relação entre o espectador e o cinema. Uma obra de um italiano que sai agora em formato digital ''Cinema Paradiso'' (ITA, 1989), de Giuseppe Tornatore. Entre os extras, apenas o trailer da versão original.
''Nuovo Cinema Paradiso'' você deve ter visto no cinema e se emocionado. É a história de um garoto, Totó, que só conhece o mundo por meio dos filmes que passam no cineminha de sua cidade. Philippe Noiret faz o projecionista do cinema, outro apaixonado pelos grandes filmes e pelas estrelas que formavam o imaginário poético de muita gente. Como ocorreu em muitas cidades pequenas, os cinemas foram fechando e a fantasia se deslocou para outros meios de comunicação.
Há uma cena final, em que Totó, já um cineasta, descobre um rolo de filmes com as cenas eróticas que Noiret escondia. O momento em que Totó observa essas imagens pode ser considerado a síntese da relação que um ser humano nutre com a arte. É um momento único, purificador, de extrema devoção a uma fantasia negada.
Entretanto, quando ''Cinema Paradiso'' estreou na Itália, crítica e público não gostaram. Muitos acharam Tornatore um pouco apelativo, carregando no melodrama. Talvez essa observação se aplique a outras obras do cineasta, como os recentes ''A Lenda do Pianista do Mar'' (98) e ''Malena'' (2000). Suas obras iniciais, como ''Estamos Todos Bem'' e ''Sempre aos Domingos'', ao lado de ''O Homem das Estrelas'' (95) revelam o Tornatore nostálgico, com uma mão que equilibra o tom de fábula e o registro histórico. Um grande diretor, que traz em ''Cinema Paradiso'' um apelo ao velho cinema dos anos 30 e 40, quando os filmes ainda mudavam a vida das pessoas. Literalmente.
Lançamento: Versátil. Duração: 123 minutos.
OUTROS LANÇAMENTOS
Império do Sol
Sim, houve um momento em que Spielberg era bom. Após os grandes vôos dos anos 70 com ''Encurralado'', ''Louca Escapada'', ''Tubarão'' e ''Contatos Imediatos do Terceiro Grau'', ele passou por uma fase obscura, retomando seu estilo apenas em ''A Cor Púrpura'' e nessa adaptação da obra de J. G. Ballard, ''Império do Sol'' (EUA, 1987). Um dos filmes mais autobiográficos do cineasta, ''Empire of the Sun'' mostra a trajetória de Jim Graham (Christian Bale), um garoto em meio a uma guerra, a 2 Guerra Mundial. Primeira produção americana a ser rodada na China, o filme relembra a fantasia que Spielberg perde quando tenta ser sério. Não há patriotismo, pieguice, nem finais felizes. Apenas um garoto, uma guerra, e um cineasta talentoso. Antes de se tornar o produtor que se tornou nos anos 90... Os extras são escassos, oferecendo apenas o trailer original do cinema.
Lançamento: Warner. Duração: 153 minutos.
Papillon
Um filme de ação como poucos. Conflitos psicológicos, fugas espetaculares, e atores expressivos. Eis o que Frankiln J. Schaffner traz em ''Papillon'' (EUA/FRA, 1973), o melhor filme com Steve McQueen. Ele é Papillon do título, preso injustamente em uma ilha que pode ser considerada literalmente um inferno, a Ilha do Diabo. McQueen tenta fugir desesperadamente, mas não há como. Punido após tantas fugas, ele passa anos em uma solitária atingindo a loucura. Somente velinho consegue a liberdade. Adaptado do livro de memórias de Henri Charrière, e com brilhante roteiro de Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr., ''Papillon'' integra um seleto grupo de produções dos anos 70, em que os estúdios de Hollywood começaram a apostar em projetos ousados. Muitos fãs brasileiros do filme só o conhecem das sessões de madrugada da Globo, da época em que a dublagem era feita por atores, não por vozes apenas bonitas. Filme para ter em casa, apesar de os extras oferecerem apenas o trailer original.
Lançamento: Flashstar. Duração: 150 minutos.


