UMA PLANTA DE MIL E UMA UTILIDADES
Marcos Losnak
Especial para a Folha 2
Nos dias de hoje quando se fala em maconha, fala-se automaticamente em droga maléfica. A palavra tornou-se sinônimo de algo ruim e mau. Mas a História mostra que esta imagem é um elemento recente na história da humanidade.
A maconha se tornou uma droga ilegal somente a partir de 1930. O primeiro registro documental do uso da planta data de 2300 a.C., quando o imperador chinês Chen Nong prescreveu maconha para o tratamento de constipação, gota, beribéri, malária, reumatismo e problemas menstruais. Entre uma data e outra, mais de 4 mil anos, existe uma vasta história ainda pouco divulgada.
Parte desta vasta história está em O Grande Livro da Cannabis, obra do norte-americano Rowan Robinson que acaba de ser lançada pela Jorge Zahar Editor. Trata-se de um obra documental sobre a história do uso industrial, medicinal e ambiental da cannabis (nome científico da maconha, também chamada de cânhamo).
O cânhamo é considerado a primeira fibra vegetal cultivada pelo homem. Em escavações arqueológicas realizadas na China, foram encontrados tecidos de cânhamo em sepulturas com cerca de 8 mil anos de idade. A resistência dos tecidos e cordas de cânhamo são conhecidas há milênios. As velas e cordas das caravelas utilizadas por Cristóvão Colombo na descoberta da América, por exemplo, eram feitas de fibra de maconha.
Em O Grande Livro da Cannabis, Rowan Robinson ressalta a diversidade de uso da planta como matéria-prima, uma planta que pode ser comparada, pela multiplicidade de uso, à soja. Poder ser utilizada para a fabricação de tecidos, cordames, remédios, papel e embalagens, móveis, materiais de construção, material elétrico, óleo lubrificante, tinta e vedantes, fibra, ração para animais, etc. O ponto central é que o impacto ambiental do cultivo do cânhamo é sensivelmente inferior aos de outras matérias-primas.
O enfoque ideológico de Robinson está em defender a utilização da cannabis, enquanto matéria-prima industrial, como componente de preservação ambiental elemento ecológico que apenas não é utilizado por causa de interesses políticos e econômicos gananciosos. Chega a mostrar que a maconha não foi proibida nos Estados Unidos pelo fato de ser uma droga nociva, mas por pressão de lobbys econômicos. Na década de 30, os produtos derivados do cânhamo eram utilizados até mesmo como substitutos aos da indústria petroquímica. Para a ascensão da indústria petroquímica e da indústria têxtil baseada no algodão era necessário a queda da indústria do cânhamo. Para esse fim, leis foram criadas (financiadas) proibindo o cultivo da planta.
Para se ter uma idéia de como o cânhamo era respeitado como matéria-prima, basta citar a invenção de Henry Ford na década de 30, o automóvel nascido da terra. Após 12 anos de pesquisa Ford apresentou ao mundo o primeiro carro feito de fibras vegetais. A corroceria plástica era composta de 70% de cânhamo, palha de trigo e sisal, e 30% de aglutinante resinoso de maconha. O automóvel pesava um terço menos que o correspondente de aço, ao mesmo tempo dez vezes mais resistente. O próprio Ford posou para uma lendária fotografia desferindo um golpe de machado na lataria do carro. O motor era projetado para utilizar óleo de cânhamo como combustível. Vale lembrar que os dois primeiros presidentes norte-americanos, George Washington e Thomas Jefferson, eram fazendeiros plantadores de cânhamo.
Outro curioso livro que tem a maconha foi lançado recentemente pela Editora Puzulin. Escrito pelo professor de filosofia francês Frédéric Pagés, Descartes e a Maconha mostra René Descartes (1596 - 1650), o filósofo e matemático que criou o método científico utilizado pela ciência moderna, como um inveterado usuário da cannabis. Com base em estudo nos arquivos de Descartes, Pagés defende a humorada tese de que o filósofo foi morar na Holanda para poder fumar livremente maconha. O autor vai além. Com ironia afirma que o clássico Discurso do Método, obra mais famosa de Descartes filósofo, foi desenvolvida entre um baseado e outro. Se esta tese for comprovada, dentro do mundo da ciência equivale dizer que Albert Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade entre uma garrafa e outra de vinho.
Entre veracidades e ficções, tudo indica que a história reserva surpresas escondidas sob o manto da cannabis, planta que se tornou com o tempo uma espécie de tabu. Um tabu construído graças à falta de informação.
O Grande Livro da Cannabis - Guia completo de seu uso industrial, medicinal e ambiental de Rowan Robinson, Jorge Zahar Editor, tradução de Maria Luíza X. de A. Borges, introdução de Ellen Komp e Chris Conrad, depoimentos à edição brasileira de Alberto Zacharias Toron, Maria Lúcia Karam, Gilberto Velho, Fernando Gabeira e Domingos Bernardo Silva Sá, apêndice de Rogério Rocco, revisão técnica de Rogério Rocco e Denise Baptista Alves, 152 páginas, ilustrado, R$ 29,00.Livro de Rowan Robinson traça uma breve história da maconha e afirma que os produtos produzidos a partir da planta são ecológicos
ReproduçãoIlustração da capa de O Grande Livro da CannabisReproduçõesCosméticos produzidos com cannabis, casas construídas com o caule da maconha e um carro criado por Henry Ford com fibras da planta mostram a versatilidade de um produto comparado à soja





