O poeta Fernando Pessoa, cuja obra foi totalmente incompreendida por seu público contemporâneo, e que hoje é considerado o maior escritor português deste século, costumava amontoar seus manuscritos em um baú de onde não se parou de extrair, desde sua morte em 1935, os fragmentos de uma obra disforme, inacabada, mas de incomparável beleza. A biografia de Pessoa, publicada recentemente em Paris - provavelmente uma das primeiras, se não a primeira - pelo francês Robert Bréchon, resume em seu título todo o destino do escritor português: ‘‘Estranho Estrangeiro’’ (‘‘Etrange Étranger’’, editora Christian Bourgois).
Sua vida foi um verdadeiro marasmo, onde nada acontecia. Durante 30 anos, desde sua adolescência até sua morte, Pessoa não saiu de Lisboa, onde nasceu e levou a vida obscura de um funcionário de escritório. Em 8 de março de 1914, no entanto, o poeta de 25 anos, introvertido, idealista, ansioso, viu surgir de dentro si o mestre ‘‘pagão’’ Alberto Caeiro, seguido por seus dois discípulos: Ricardo Reis e Alvaro de Campos, que se autodenominava ‘‘sensacionalista’’, conforme ressalta o biógrafo.
Um modesto ordenança, Bernardo Soares, com uma prosa pomposa, redigia o diário íntimo de sua ‘‘intranquilidade’’, enquanto que Fernando Pessoa, em português ou em inglês, explorava todo o tipo de caminhos novos, que iam do erotismo ao esoterismo e do lirismo crítico ao nacionalismo místico.
Sem paralelos Diz o biógrafo: ‘‘Imaginemos que na mesma época Paul Valery, Bernard Claudel, Jean Cocteau, André Gide ou Guillaume Apollinaire tivessem sido um único escritor, escondido sob ‘máscaras’ diferentes. Desta forma se pode ter uma idéia do mistério da aventura mental de Pessoa, praticamente sem paralelos na literatura’’.
Pessoa, nascido em 1888, e finalmente reconhecido em seu país e cada vez mais no mundo, está enterrado no Mosteiro dos Jerônimos, perto dos túmulos de outros dois heróis portugueses: o poeta Luis Vaz de Camões e o navegador e descobridor Vasco da Gama.
Este ano, outros dois livros de Pessoa foram publicados em francês: ‘‘Lisboa’’ e ‘‘Notas que Lembram meu Mestre Caeiro’’. Pessoa também havia concebido o projeto de um conjunto de guias sobre seu país, que deveria se chamar ‘‘Tudo sobre Portugal’’, do qual apenas ‘‘Lisboa’’ foi concluído.

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