São Paulo, 22 (AE) - Pietro Maria Bardi faria 100 anos ontem. Quase metade desse tempo ele dedicou à criação do museu com o acervo mais valorizado da América Latina. Ele não apenas trabalhou com Assis Chateaubriand para conseguir comprar - nem sempre da forma mais idônea possível - os grandes mestres da pintura européia, de Rafael a Degas, como procurou implantar uma nova concepção de museu, defendendo a necessidade de abrir a instituição para a rua e promovendo a integração entre as diferentes formas de expressão artística.
"É preciso conceber novos museus, fora dos limites estreitos e de prescrições da museologia tradicional: organismos em atividade, não com o fim estreito de informar, mas de instruir; não uma coleção passiva de coisas, mas uma exposição contínua e uma interpretação de civilização", escreveu ele. Bardi é um personagem fascinante. Admirado por alguns e odiado por outros, ele é sem dúvida um dos grandes protagonistas da cultura brasileira deste século. Isso apesar de ter desembarcado no País com 46 anos, deixando para trás uma sólida trajetória. Autodidata, ele nem completou o primário, mas transformou-se em um dos galeristas mais influentes da Itália, mantendo uma relação próxima com Benito Mussolini. Simpatizante do fascismo num primeiro momento, ele se desilude quando o Duce se aproxima de Hitler. Logo após o término da guerra, em 1946, desembarca no País com sua segunda mulher, Lina Bo. Foi aí que conheceu Chateaubriand e foi convidado para fundar o museu. Inicialmente ele seria no Rio, mas o dinheiro estava em São Paulo. Na bagagem
Bardi já trouxe algumas obras importantes, que acabou vendendo por aqui. Várias delas estão hoje no Masp e podem ser vistas na exposição. Foi várias vezes à Europa e aos EUA comprar novas peças.
No imediato pós-guerra foi fácil amealhar pela Europa uma série de obras-primas. Os preços eram atraentes e a oferta ampla. O dinheiro para isso Chateaubriand conseguia pressionando o empresariado local. A primeira sede do museu foi inaugurada em 1947, na Rua 7 de Abril. O local não apenas abrigava exposições, mas um leque amplo de atividades, que incluíam cursos variados como jardinagem e ginástica rítmica. Em 1968, quando a rainha Elizabeth inaugurou a atual sede, na Avenida Paulista, o museu contava com 442 obras. Quando ele deixou a direção do Masp eram mais de 5 mil.
Mas a importância de Bardi não se resumiu à formação do acervo. Ele se dedicava ao museu com um rigor e uma obstinação tal que chegou até a ser preso em 1982 quando escreveu a palavra "merda" sobre a pichação feita por um político sobre a fachada do museu e só não foi condenado porque tinha mais de 70 anos. (M.H.)

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