Uma rapsódia para a vida poderia ter a mesma vivacidade da ''Pequena Serenata Noturna''. Porém é impossível passar por todos os andamentos dessa peça, que tem como um dos compositores o destino, sem experimentar o improviso do popular chorinho, que revela os verdadeiros virtuoses.
Em dois concertos diferentes desse rapsódia, o músico Marco Aurélio Gonçalves Coelho, viveu - num primeiro momento - a emoção de tocar em orquestras, como a Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel). Mozart, autor da ''Pequena Serenata Noturna'', foi convidado por ele para sentar na primeira fila de suas reminiscências daquela época.
O repertório erudito não foi abandonado pelo músico, mas ganhou a companhia do popular ao se tornar artista de rua, tocando ''Brasileirinho'' para a platéia que passa pelo Calçadão de Londrina.
Os dois clássicos do erudito e popular são hoje duas partituras da vida de Marco Aurélio, que há um mês voltou para Londrina, depois de um período na Orquestra Sinfônica de Goiânia e passagens por Porto Alegre (RS). ''Durante três anos fiz parte da Osuel. Depois toquei na Orquestra de Goiânia, decidindo voltar para Londrina'', comenta o violinista e pianista, que começou a se dedicar à música aos oito anos de idade.
Com 32 anos, a experiência de Marco Aurélio, que outros músicos reservam lugar entre os virtuoses, o ajuda a enxergar a rua, como uma avenida em que no meio das pessoas, que passam despercebidas, também caminha alguma solitária oportunidade.
''É uma alternativa que encontrei para ganhar a vida. A diferença entre tocar num teatro e na rua é que as pessoas não estão acostumadas a ouvir música clássica'', ressalta Marco Aurélio, recolhendo os aplausos e o dinheiro, que o pequeno público deposita na caixa do violino.
Para enfrentar uma platéia tão diferente da que estava acostumado, Marco Aurélio conta que abriu mão de algumas coisas: ''Abri mão da vergonha. É preciso abrir mão de tudo e não se importar com as coisas. Caso contrário, você não consegue fazer nada'', afirma o músico, que iniciou a formação musical em Aracaju (SE).
Carioca, Marco Aurélio conta que traz dentro da caixa do violino também um pouco de um gênio rebelde - o que não chega a ser um defeito para um admirador da obra de Mozart, um franco obstinado, a quem os estudiosos afirmam muitos homens estão atados à musica pela corrente da rebeldia.
Para o músico, a rua como palco, é um mundo aberto onde peregrina, tendo a companhia do violino, Mozart... Nessas andanças, ele descobriu o que significa ser mais um brasileirinho. ''Já pensei em parar de tocar. Só que é a única coisa que sei fazer. Algo que os meus pais e eu investimos'', comenta Marco Aurélio ao lembrar que as primeiras inspirações para a carreira musical vieram dos pais, músicos autodidatas.
A persistência de Marco Aurélio faz lembrar um episódio do autor do clássico ''Brasileirinho'', Waldir Azevedo, uma das obras do repertório dos concertos ao ar livre do artista de rua.
Azevedo teria composto uma de suas músicas mais famosas ao chegar em casa e ouvir o apelo do sobrinho pequeno, com um cavaquinho de plástico quebrado na mão: ''Tio, toca alguma coisa para mim''. Ele respondia: ''Eu gostaria, mas o cavaquinho só tem uma corda''.
''Ah, tio, toca assim mesmo'', insistiu o menino e, do improviso, assim como na vida de qualquer outro brasileirinho, a exemplo de Marco Aurélio, o virtuosismo transformou a capacidade de se adaptar às situações em uma obra-prima.

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