Uma peça suja e um folhetim no palco
Francelino França
Equipe da Folha
Curitiba - A Cia. Portátil apresenta nessa edição do Festival de Teatro de Curitiba uma crítica social camuflada de comédia: Linguiça no Campo. A miscelânea de esquetes se sucedem nas mais diversas ambientações. A Cia. Portátil explora o submundo numa visão descompromissada e jovem, colocando no palco situações patéticas. A única ligação entre as esquetes é a linguagem, onde os atores usam os próprios nomes. As situações encenadas foram pinçadas de filmes de Charles Chaplin, Lars von Trier (Os Idiotas), Mr. Bean e dos desenhos animados South Park e Simpsons. A trupe buscou material em hospitais psiquiátricos e Rua XV de Novembro, centro de Curitiba, se valendo da observação.
Para a atriz Maureen Miranda, integrante do elenco, a peça é suja em todos os sentidos e exala um forte odor político. Dezenas de revistas pornográficas foram manuseadas durante a montagem, apenas com intuito de saciar a pesquisa teatral. Numa das revistas, um cidadão anunciava que gostaria de aplacar o desejo de sexo no campo, daí o título Linguiça no Campo.
Os 11 atores se expõem sem pudores e se entregam em pockets histórias que passam pelo besteirol, às mazelas do submundo e resvalam até no dramalhão. A peça foi montada num moinho queimado e abandonado e apresenta cenas simultâneas em uma passarela e dois palcos. A Cia. Portátil tem como objetivo ganhar a atenção do público jovem e traz em seu currículo peças como Bailei na Curva, Romeu e Julieta e As Fabulosas, esta última apresentada no Fringe, Mostra Alternativa, no ano passado.
Ainda na Mostra Contemporânea, Meu Destino é Pecar deve captar as atenções hoje. A Cia. dos Atores buscou no reacionário de suspensórios a inspiração para esse espetáculo. Sob o pseudônimo de Suzana Flag, Nelson Rodrigues, escreveu em 1944, em 38 capítulos, o folhetim Meu Destino é Pecar.
Na rocambolesca história, o grupo carioca leva ao palco o jovem Paulo, um caso patológico de um viúvo extremamente ligado à memória da esposa Guida. Por conveniência, ainda de luto fechaod, Paulo casa-se com Leninha, que é assediada pelo cunhado Maurício. No romance folhetinesco, a pobre Leninha tem de enfrentar a sogra autoritária, uma prima do marido, o fantasma da ex-esposa de Paulo. Na verdade, a falsa morta Guida vive numa cabana nas terras da fazenda num idílio amoroso com Maurício. Esse novelo sentimental foi chupado de canudinho do filme Rebeca, a Mulher Inesquecível, que Alfred Hitchcock levou às telas.
Uma curiosidade sobre Suzana Flag, a máscara literária de Nelson Rodrigues. Ela recebia incontáveis cartas e Nelson procurava responder todas e até dizia que estava prestes a se casar. Um detento de uma penitenciária carioca escrevia para Suzana Flag com frequência pedindo conselhos. A admiração do presidiário pela escritora chegou a tal ponto que ele convidou Suzana Flag para ser madrinha do casamento.
A adaptação carioca tem no elenco Bel Garcia, Enrique Dias, Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Suzana Vieira e Malu Gali. A direção de movimentos e coreografias leva a assinatura de Deborah Colker.
Serviço: Linguiça no Campo, criação coletiva com a Cia Portátil de Curitiba, com direção de Rafael Camargo, hoje às 21h30 e de segunda a quarta-feira, às 20 horas, no Moinho Novo Rebouças (Rua Engenheiro Rebouças esquina com Piquiri). Ingressos a R$ 20,00.
Meu Destino é Pecar, adaptação da obra de Nelson Rodrigues, sob a direção de Gilberto Gawronski, hoje às 21h30 e amanhã às 20 horas, no Teatro da Reitoria (Rua XV de Novembro, 1.299). Ingressos a R$ 20,00.





