Texturas, climas, ambiências. Sai o virtuosismo, entra a sutileza de acordes quase etéreos. É como soa o violão de Ulisses Rocha em seu novo disco, apropriadamente intitulado Ar, que chega ao público pelo selo independente Azul Records.
É o quinto álbum-solo do artista, que ganhou notoriedade no começo da década de 80 como integrante do grupo D’Alma. Hoje fora do foco da mídia, Ulisses Rocha continua atuante e produtivo. Além do CD, está lançando o livro Estudos para Violão nº1, primeiro volume da coleção Música Instrumental Brasileira, publicada pela Editora Árvore da Terra.
ReproduçãoLirismo e clima contemplativo marcam seu novo CDAmbos, livro e disco, trazem novas abordagens para a manipulação das seis cordas. Dono de um currículo abastado, Ulisses participou de discos e shows de gente de renome como Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Cesar Camargo Mariano, Gal Costa, Toquinho e Boca Livre.
Mas foi ao lado de André Geraissati e Rui Saleme (substituído por Mozart Mello) no D’Alma que marcou época, inspirando os maiores virtuoses do mundo para a formação do ‘‘super-trio’’, como ficou conhecido o grupo constituído por Al Di Meola, Paco de Lucia e John MacLaughlin.
Duas décadas depois, Ulisses Rocha já não acelera os dedos nas cordas como antes, mas continua desafiando tradicionalistas com uma linguagem musical híbrida derivada de passagens pelo rock e jazz. Na nova fase, incorporou a tecnologia MIDI a seu instrumento sendo o primeiro solista brasileiro a trabalhar com o recurso nas gravações e em shows.
ReproduçãoLivro reúne dez estudos para aprimoramento da técnica do violãoO sistema, já usado por músicos de estúdio, converte o sinal acústico em digital permitindo ao violão extrair o som de teclados. ‘‘Com o MIDI, o violão muda completamente sua função na execução musical’’ - explica ele. ‘‘Numa banda, por exemplo, ele deixa de ser um mero recurso de timbre para rivalizar em primeiro plano com a guitarra. No meu caso, quando preciso de um arranjo mais pesado, já posso dispensar o acompanhamento de um tecladista. O problema é que a classe dos violonistas é muito preconceituosa, purista e quer manter o som acústico a qualquer preço. O que não é o meu caso, que sempre tive fascínio por tudo o que é ligado na tomada’’.
Mas apesar da profissão de fé no elétrico, Ar é um álbum contemplativo - mais calmo do que os trabalhos anteriores, segundo o próprio compositor. Tal atmosfera desponta em faixas de raro lirismo como ‘‘De Repente Lembrei De Voc꒒, ‘‘De Cara pro Sol’’ e ‘‘Rio Acima’’; na sutil incursão por ritmos regionais em ‘‘Rindo da Saudade’’ (esta a grande faixa do CD) e no tempero latino de ‘‘Mar钒.
O disco traz algumas regravações. As duas primeiras destacadas acima são reinterpretações de temas já registrados no álbum Casamata, lançado pelo selo Som da Gente em 1989. ‘‘Quis mostrar essas músicas porque aquele disco não teve uma boa circulação no mercado, já que a gravadora faliu por problemas administrativos pouco depois de seu lançamento’’ - justifica.
Ulisses rejeita estereótipos de brasilidade em sua música. ‘‘Todos, inclusive no exterior, me reconhecem como um músico brasileiro moderno’’ - sublinha. ‘‘Mas isso vem mais da melodia do que do ritmo. O samba explícito só entrou em uma faixa de meu primeiro disco. Mas é uma exceção. Não gosto de nada que soe a caricatura’’.
Sempre às margens da grande indústria, como aliás todos os artistas do segmento instrumental, ele acredita que o público para esse gênero de música se manteve estável desde a fase em que lotava teatros apresentando-se com o D’Alma. O problema é chegar até ele, ressalva, já que hoje a divulgação de trabalhos instrumentais diminuiu na mesma e inversa proporção com que cresceu a difusão de estilos musicais popularescos.
‘‘A indústria fonográfica está voltada para a exaltação da alegria a qualquer custo. Você liga o rádio e a TV, e só ouve e vê carnaval e sensualidade barata’’ - diz. Mas, também segundo ele, o fenômeno da vulgarização é mundial. Mesmo assim, ainda espera uma boa acolhida no exterior de seu álbum Moleque, lançado na metade do ano passado.
‘‘Nesse disco apresento uma formação jazzística com trio de baixo, percussão e o violão fazendo a vez do piano’’ - conta. O CD chegou ao mercado internacional pelo selo norte-americano Malandro Records.DivulgaçãoUlisses Rocha: integrou o trio D’Alma, grupo que no começo da década de 80 inspirou virtuoses como Al Di Meola, Paco de Lucia e John MacLaughlinO músico e compositor Ulisses Rocha está lançando seu quinto disco e um livro de estudos para aprimoramento de técnicas de violão

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