Uma passagem para o inferno
Celso Mattos
Londrina
ReproduçãoLeonardo DiCaprio faz um Rimbaud irreverente, revolucionário e vítima de um talento delirantePara assistir ao filme Eclipse de uma Paixão é preciso estar preparado para fazer uma breve viagem ao inferno. O inferno vivido por dois dos maiores poetas da língua francesa do século passado: Arthur Rimbaud e Paul Verlaine. Juntos eles viveram uma tumultuada e escandalosa relação que durou quatro anos. Ao contrário de Dante que descia ao inferno e voltava quando lhe convinha, Rimbaud preferiu ficar por lá até a sua trágica morte aos 37 anos.
Aos 20 anos, Rimbaud abandonou a poesia, deixando uma obra pequena mas tão revolucionária que até hoje causa espanto e admiração. O que falta no filme dirigido pela polonesa Agnieszka Holland é justamente um aprofundamento maior da poesia de Rimbaud e Verlaine, como também abordar outros aspectos importantes da vida dos dois poetas. Eclipse de uma Paixão peca ao privilegiar em excesso a relação homossexual vivida intensamente por eles, deixando de lado, por exemplo, o estigma social que ambos sofreram durante suas vidas.
Mas isso não chega a comprometer o filme que tem um roteiro poético, uma bela fotografia e grandes interpretações. Leonardo DiCaprio faz um Rimbaud rebelde, irreverente e vítima de um talento delirante. David Thewlis é Paul Verlaine, um poeta famoso que se apaixona perdidamente por Rimbaud, seguindo-o até as últimas consequências. O filme se passa entre 1871 e 1882, quando Verlaine, então com 26 anos, conhece Rimbaud, um garoto de apenas 16 anos. Impressionado com sua obra, ele leva o jovem poeta para morar em sua casa. Em pouco tempo, Rimbaud desestabiliza a vida burguesa de Verlaine como também seu casamento com Mathilde Verlaine.
Eclipse de uma Paixão narra a conturbada relação entre os dois, que termina de forma trágica. Embriagado, Verlaine dá dois tiros no amante, ferindo-o levemente. Julgado pela polícia belga, ele passa dois anos na prisão. Em 1875, eles se encontram pela última vez na Floresta Negra, em Stuttgart. Decepcionado com a literatura, Rimbaud parte para a África, onde permanece por 10 anos. Vitimado por tumor no joelho, ele volta para a França, tem sua perna amputada e acaba morrendo em Marselha ao lado da irmã, Isabelle Rimbaud.
Arthur Rimbaud morreu frustrado. Ele sonhava mudar o mundo com sua poesia. Para isso, ele dizia que não bastava ser apenas uma pessoa, mas todas ao mesmo tempo. Viveu pouco, mas intensamente. Um aspecto importante do filme é que ele mostra Rimbaud e Verlaine como partes da mesma pessoa ou reflexos um do outro. Aliás, a duplicidade sempre foi o tema preferido da diretora Agnieszka Holland, que tem duplos inclusive nos nomes de seus outros filmes: Europa, Europa (Filhos da Guerra) e Oliver, Oliver. O roteiro é assinado por Christopher Hampton, que além de roteirizar Ligações Perigosas, dirigiu o belíssimo Carrington.
A temporada de Titanic nos cinemas é uma boa oportunidade para o público presenciar duas grandes interpretações de Leonardo DiCaprio. Vale ressaltar também a coragem deste jovem ator que, mesmo no auge de sua fama, não teve medo de arriscar sua carreira fazendo o papel de um homossexual. Com certeza, para as tietes de DiCaprio não será nada agradável ver o ator beijando David Thewlis. Mas isso demonstra que Leonardo DiCaprio não está preocupado apenas com a fama, mas também em fazer papéis cada vez mais diversificados.
Duração: 110 minutos.





