Uma Palma sem grandes favoritos
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sexta-feira, 23 de maio de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha2 
Nesta véspera de encerramento, a cidade deve ficar um pouco mais tranquila. O Marché du Film terminou ontem e compradores e vendedores de filmes voltam hoje para casa. O mesmo ocorre com mais da metade dos jornalistas do continente, que vão assistir comodamente em suas casas a transmissão televisiva direta da cerimônia de premiação, amanhã à noite. Mas tanto quem vai como quem ainda fica compartilha a mesma certeza: nenhum dos 22 filmes recebeu a maior cota de confiança dos observadores para colocar as mãos na Palma de Ouro - não contam neste caso as preferências do júri presidido por Sean Pean, de resto secretas como convém...
A Itália fez sua segunda e melhor entrada na competição com ''Il Divo'', uma
sólida sátira-denúncia, uma tragicomédia realizada de forma inteligente e impiedosa por Paolo Sorrentino sobre a trajetória política de Giulio Andreotti, um dos mais resistentes e controvertidos personagens a se alternar no poder na Itália na segunda metade do século passado.
Mesmo o espectador de qualquer procedência, que não tenha maiores intimidades com a intrincada rede de corrupção, com aquele operístico xadrez político, vai se deliciar com esta peça de ótimo cinema que mistura ficção e documentário fake sem cerimônia, sem parcimônia e com muita criatividade.
Terceiro e último americano exibido na mostra competitiva, ''Synecdoche, New York'', marca a estréia do roteirista Charles Kaufman na direção. Uma das mais férteis e menos ortodoxas imaginações a serviço da independência hollywoodiana (''Quero ser John Malkovich'', ''Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças''), Kaufman faz uma reflexão sobre a criação artística através de um autor teatral (Philip Seymour Hoffman, de novo extraordinário) e das várias mulheres que o cercam, na vida e na ficção, e também quando as duas se tornam uma coisa só - Michelle Williaman, Catherine Keener, Jennifer Jason Leigh, Emily Watson, Samantha Morton, Dianne Wiest e Hoe Davis. O filme, confuso somente na aparência, é suficientemente inventivo e corajoso no trânsito entre real e imaginário. Prêmios não estão descartados.
Outros filmes projetados na competição oficial tiveram mais detratores que defensores. O caso de Philippe Garrel é paradigmático da velha luta cinéfila que a França testemunha desde a interrupção da nouvelle vague. Enquanto os defensores da linha abençoada pela revista ''Cahiers du Cinéma'' exaltam o cinema deste diretor, os opositores não se cansam de combatê-lo. Assim, é possível comprender melhor que a projeção de ''La Frontiere de L'Aube'', primeiro filme de Garrel que chega à competição em quatro décadas de carreira do diretor, terminou com uma guerra entre vaias e aplausos, com vantagem final para as primeiras.
Rodado em branco e preto, como a maioria dos filmes de Garrel, é uma trágica história de amor com alguns elementos fantásticos. Descreve a relação passional entre Carole (Laura Smet), bela e popular atriz casada com um diretor que praticamente a abandona para se radicar em Hollywood, e François (Louis Garrel, filho do diretor), um fotógrafo que ela conhece durante uma sessão de fotos. Carole começa a sofrer transtornos psicológicos e acaba se matando. A ação avança um ano, e agora François mantém uma relação com Eve (Clementine Poidatz). Tudo parece ir bem até que surge o fantasma da ciumenta Carole. Um filme estranho e não desprovido de certo fascínio, com a marca inconfundível do criador de ''Os Amantes Constantes'', premiado em Veneza e exibido ano passado no Brasil.
Já o canadense Atom Egoyan, outro habituée de Cannes (''Exótica'', ''O Doce Amanhã''), apresentou o ambicioso e pretensioso drama ''Adoration'', que vincula a tragédia familiar de um adolescente que perdeu os pais em acidente de carro com o terrorismo globalizado e os efeitos nocivos das novas tecnologias - Internet é a vilã número um. Um dos filmes menos bem-sucedidos de uma competição que, de qualquer maneira, teve bem mais pontos positivos do que filmes a lamentar.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes


