Uma orquestra muito especial
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domingo, 05 de abril de 1998
Nelson Sato 
Cesar AugustoOrquestra popular inclui de estudantes de segundo grau a donas de casa e aposentadosTirar música de ouvido. Essa prática, tão popularizada nas ruas quanto rejeitada em escolas e conservatórios, está ganhando prestígio institucional em Londrina. É ela, com toda a controvérsia que pode provocar, a principal marca da Orquestra de Música Popular Brasileira comandada pelo maestro Edval Andrade, na Usina do Conhecimento.
A orquestra está sendo formada desde janeiro desse ano na Usina - espaço cultural destinado à educação não formal implantado pelo governo do Estado no conjunto Parigot de Souza 3, zona norte da cidade. O meu trabalho aqui é prático - afirma o maestro. Eu pego um grupo de pessoas que nunca tocaram nada e em poucos dias ponho para tocar. É só distribuir o arranjo dividindo as funções para cada músico, com cada um tocando um determinado conjunto de notas em seu instrumento.
Andrade, que é dono de uma escola de música e também dirige um coral, sublinha que o compromisso da orquestra é com a valorização da diversidade musical brasileira. Por isso quer trabalhar a execução de gêneros e ritmos distintos como samba, canção, galope, chorinho, marchinha e frevo. Em fase de seleção dos músicos, diz que existe muito entra-e-sai no grupo.
Na última quarta-feira, havia cerca de 20 componentes ensaiando composições de Chico Buarque de Hollanda, Zé Ramalho e outros ilustres da MPB. A turma inclui de adolescentes a donas de casa, aposentados e ex-músicos da noite. Minha família inteira entrou na orquestra - disse a estudante Vanessa Freitas Gonçalves, 15 anos, escalada para tocar os instrumentos de percussão.
Fora da orquestra, ela participa de liturgias tocando teclado numa igreja do bairro. Murilo Barbosa, 19 anos, outro jovem da turma, parecia ter descoberto seu lar musical. Eu pensei em entrar na Orquestra Sinfônica da UEL (Universidade Estadual de Londrina), mas percebi que não tinha cacife. Lá ninguém improvisa, o músico tem que seguir a partitura. Aqui não, aqui a gente tira um arranjo de ouvido de uma gravação e consegue até criar em cima - comparou.
Para o maestro, a formação de uma orquestra popular prescinde de saberes eruditos. Hoje em dia, diz, a leitura de partitura ocupa 90% das aulas de música e apenas 10% é voltada para a audição. Eu faço o contrário. Aos que criticam seu método de trabalho, ele tem uma resposta na ponta da língua:
Nossa proposta é descobrir e desenvolver o talento de cada um. Seguimos o exemplo de artistas como Hermeto Paschoal, João Bosco, Djavan e muitos outros que nunca precisaram aprender teoria para fazer música. Com ele concorda o acordeonista Amauri Bianchi, um dos mais veteranos da turma. Tenho bom ouvido, não preciso ler partituras - enfatiza.
A maioria dos integrantes dessa orquestra não lê nada, mas está todo mundo tocando direitinho. Tudo depende dos ensaios. Bianchi, hoje com 60 anos, integrou durante muitos anos na banda do Grêmio Recreativo Londrinense, conhecida na cidade como a orquestra do Gervásio. Fez parte também da Big Night, conjunto da TV Coroados que marcou época no começo dos anos 70. Do alto de sua experiência, acredita que brevemente a orquestra popular estará afiada: Dou três meses para ela ficar tchans.


