Agência Estado

ReproduçãoCarla Camurati: projeto ambicioso depois do sucesso com ‘‘Carlota Joaquina’’Primeiro foi uma investigação bem-humorada sobre Carlota Joaquina. Agora, é a vez da ópera. A atriz e diretora Carla Camurati, de 35 anos, vai filmar a obra ‘‘La Serva Padrona’’, do italiano Giovani Batista Pergolese (1710-1736). Na realidade, Carla passará para a tela o trabalho que criou para os palcos mineiros. Ela dirigiu o espetáculo, que foi apresentado em dezembro do ano passado, no Teatro Sesi-Minas Inacen Araújo, em Belo Horizonte. A diretora filmará a ópera entre os dias 13 e 17 de fevereiro.
Carla foi convidada para participar do projeto, um patrocínio do Banco Sudameris, da Telemig, da Fundação Turino e da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), no meio do ano passado, depois de ter ido a Belo Horizonte para fazer uma palestra sobre cinema. ‘‘Quase morri de emoção quando me convidaram para dirigir a ópera’’, lembra Carla. ‘‘Eu tinha um desejo enorme de fazer um trabalho como esse’’.
A diretora levou quatro meses para preparar o espetáculo. Para isso, estudou e pesquisou muito. Teve, além disso, a idéia de concentrar a ação da ópera, que tem mais ou menos uma hora de duração, em uma cozinha. Em sua busca por um cenário perfeito, acabou descobrindo um livro sobre culinária feito por ninguém menos do que Leonardo da Vinci. Para o filme, porém, ela vai ainda construir o ambiente de um quarto.
Histórico‘‘La Serva Padrona’’ é uma ópera bufa, que se passa em Nápoles, no século 18. Sua duração curta se deve ao fato de que, inicialmente ‘‘La Serva...’’ era usada como um intermezzo para a ópera ‘‘O Prisioneiro Orgulhoso’’. Com apenas três personagens - Serpina, Uberto e Vespone - ‘‘La Serva Padrona’’ conta a história de uma empregada apaixonada pelo patrão que, graças a sua obstinação, acaba casando com ele. Dos três personagens, apenas dois são cantores. Vespone é mudo e funciona quase como um comentarista dos fatos.
A simplicidade e leveza da ópera bufa conquistaram Carla Camurati, que define a música de Pergolese como ‘‘uma pérola’’. Segundo ela, ‘‘as óperas bufas permitem um entendimento maravilhoso para o público porque não são trágicas ou dramáticas’’.

Carla Camurati
vai concentrar
a ação da ópera
em uma cozinha


CustoA idéia de transformar o espetáculo em filme surgiu durante os ensaios. ‘‘Eu percebi que dava um filme lindo’’, comenta. Além disso, argumenta a cineasta, levar ‘‘La Serva Padrona’’ para as telas teria um custo baixo, uma vez que toda a produção já está pronta. Carla acredita que o filme, que será rodado em 35 milímetros e terá os mesmos patrocinadores do espetáculo, deverá custar cerca de R$ 450 mil. Com esse dinheiro ela pretende fazer quatro cópias.
A fim de transpor ‘‘La Serva...’’ para a película, Carla convidou o fotógrafo Breno Silveira, que participou de Carlota Joaquina. ‘‘Ele é o fotógrafo do meu coração’’, derrete-se. De resto, ela vai manter o esquema já montado. O filme será todo rodado no teatro, com a presença da orquestra, que continuará a ser regida pelo maestro Sergio Magnini, de 83 anos, que Carla qualifica como ‘‘um poço de sabedoria’’. O elenco permanecerá com Silvia Klein (Serpina), José Carlos Leal (Uberto) e Thales Pan Chacon (Vespone). A diretora optou por escolher um ator para o papel de Vespone por uma simples razão: ‘‘Precisava de alguém que soubesse fazer muito bem um trabalho de expressão corporal’’.
Para superar as dificuldades que pudessem surgir durante o trabalho, Carla seguiu por dois caminhos: ler e pesquisar sobre commedia dell’arte, principalmente a sua expressão, e ensaiar muito. Durante dois meses, ela trabalhou de quatro a cinco horas por dia com o seu pequeno elenco.
Ela garante, além disso, que o fascínio que sente pela linguagem das óperas ajudou no seu processo de criação. ‘‘Sempre achei que o cinema e a ópera têm canais de comunicação próximos, por causa da dimensão da sua expressão’’.
Embora reconheça que no Brasil não há tradição de se filmar óperas, Carla não está preocupada com o número de pessoas que irá às salas para assistir ao filme. ‘‘Não tenho expectativas de grandes platéias’’, assegura. ‘‘Mas, sem dúvida, o número de pessoas que irá assistir a La Serva... em um cinema será maior do que no teatro’’, observa. Antes de mais nada, Carla acha que esse tipo produção deve ser realizada até para testar o público e o seu gosto.
Otimista, ela acredita, sobretudo, no ‘‘taco’’ da obra de Pergolese. ‘‘É uma linguagem lúdica, gostosa; aposto que quem nunca viu uma ópera vai entrar na sala de cinema e gostar’’, prevê. De qualquer forma, aqueles que preferem assistir a um espetáculo como esse ao vivo não vão ficar decepcionados: ‘‘La Serva Padrona’’ começará uma turnê ainda no primeiro semestre. O espetáculo será encenado em março, em São Paulo.

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