Uma odisséia etílica
Billy Wilder é um dos poucos cineastas de Hollywood que conseguiu oscilar entre o entretenimento sofisticado e os filmes de arte que agradam o grande público. Entre seus grandes feitos, encontra-se uma pequena obra-prima até hoje privada do público brasileiro, ao menos no mercado de vídeo. Essa lacuna está sendo preenchida somente agora, com o lançamento em DVD de Farrapo Humano (The Lost Weekend, EUA, 1945, 101 minutos), quarta produção do vienense mestre dos diálogos e do bom humor.
A idéia do filme surgiu por acaso: Eu estava viajando de trem de Los Angeles para Nova York e, durante a mudança de trens em Chicago, deparei numa banca de jornal com o título The Lost Weekend (fim de semana perdido). O título me despertou curiosidade, comprei o livro e durante a viagem para Nova York o li de um só gole, explicou o diretor ao crítico de cinema e teatro Hellmuth Karasch, no livro Billy Wilder - e o resto é loucura.
O romance escrito por Charles R. Jackson mostrava o percurso trágico de um escritor, que, tomado pela frustração de não conseguir terminar uma história, agarra-se ao álcool como última possibilidade de atingir o equilíbrio emocional. Wilder, que se afastou há vinte anos do cinema, mas ainda se mantém lúcido, espantou-se na época com o tom realista do livro: O que me fascinou foi a exatidão com que o autor mostra até onde o álcool pode levar um alcoólatra - para mim, era um estudo sobre a doença, a história de uma decadência rápida, sem clemência.
Um dos pontos altos do roteiro co-escrito por Wilder e Charles Brackett mostra o potencial literário de Don Birnam, o jovem de 33 anos que não consegue terminar nenhum escrito desde que se mudou para Nova York, após concluir os estudos em Harvard. Birnam tinha tudo para se destacar: seus contos eram publicados, todos o elogiavam, e ele mostrava um senso de humor raro em um escritor tão jovem. Após uma editora de Nova York recusar a publicação de um conto seu, ele sofre um bloqueio criativo e parte para a satisfação etílica. Uma de suas frases célebres evidencia o seu drama: Um único (drinque) é demais, e cem não são suficientes.
Wilder conseguiu convencer os chefões da Paramount a comprar os direitos autorais por 50 mil dólares, quantia insignificante comparada à renda que o filme rendeu ao estúdio. Introduziu uma história de amor, pensou em convidar Jose Ferrer para interpretar o escritor, e decidiu que boa parte das cenas deveria ser filmada em locações reais: O que me interessava era fazer um filme que se passasse em Nova York.
Mesmo com a imposição do estúdio que escalou Ray Milland no papel principal, Wilder conseguiu destacar John F. Seitz como fotógrafo e Miklós Rózsa na direção musical (os mesmos do ótimo policial noir Pacto de Sangue), o que imprimiu um vigor estético incomparável ao seu filme. Tanto que o escritor alemão Thomas Mann, na época radicado nos EUA, anotou em seu diário em 8 de janeiro de 1946: Farrapo Humano, baseado em Jackson. Filme bem-feito e, como filme sobre o vício, impressionante.
Wilder já havia dirigido três filmes - A Incrível Suzana, Cinco Covas no Egito e Pacto de Sangue, além de ter criado roteiros para grandes diretores, incluindo seu mestre conterrâneo Ernst Lubitsch (A Oitava Esposa de Barba Azul e Ninotchka) e Howard Hawks (Bola de Fogo). Seu estilo, que reúne amargura e comicidade como ninguém, ainda estava se consolidando. Em Farrapo Humano, ele segue uma linha mais sóbria, respeitando o tema e os personagens envolvidos na trama, o que seria repetido no ápice da sua filmografia: Crepúsculo dos Deuses, até hoje inédito em vídeo e DVD no Brasil.
Admirador do cinema mudo, Wilder arriscou em Farrapo Humano algumas propostas visuais bem sucedidas, caso da cena em que o cineasta utiliza a marca dos copos de uísque no balcão para relatar a progressão gradativa do porre que acomete Don Birnam: Fiz essa sobreposição, da qual de fato fico um pouco orgulhoso, para encurtar o tempo e não ter de narrar de maneira tediosa... Esse insert é a aplicação das teorias de Pudovkin e Eisenstein sobre como narrar algo no cinema... O revolucionário no cinema é que o diretor pode conduzir o olhar do público, diferentemente do que acontece no teatro, onde o público sempre vê a mesma disposição das coisas, explica.
E Wilder acertou em cheio no filme. Mesmo com uma primeira receptividade negativa, ele apostou em sua narrativa realista e obteve sete indicações ao Oscar, das quais saiu vencedor em quatro: melhor filme, diretor, roteiro e ator, o primeiro e único de Ray Milland. Após o sucesso no Oscar, o público encheu as salas de projeção e Wilder mostrou a Paramount que o público nem sempre deve ser considerado imaturo ou frívolo.
Após toda a investigação das causas e consequências de um vício, Wilder confessa a Karasch não saber na verdade o destino do protagonista: Para mim o filme termina com uma centelha de esperança: Birnam volta a escrever. Mas na verdade, o desfecho é incerto, sempre pode haver uma recaída.
Serviço:
Farrapo Humano (The Lost Weekend) lançamento em DVD, pela Universal. Importado - região 1; legendas em inglês, espanhol e francês. À venda na Modern Sound (Rua Barata Ribeiro, 502-D), Rio de Janeiro (RJ) - encomendas pelo telefone (21) 2548-5005. Preço: R$ 90,00.





